segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Seca.
Amarga por tras de um sorriso, e em compasso de espera.

Sempre a espera.

E aí secou.

Com o encanto do jeito galante, e alegrote, forrou a tristeza e a indiferença vital, de nao ter o suor a aflorar, a saliva a escorrer, a respiração entrecortada.
Seca sem entender o abandono, o desinteresse.
Em pulsadas de ânimo entendia tudo, colocava em circunstancia, mas se nao a fazia chorar mais, secava-a mais.

A raiva tambem se tinha secado. Até a dor aguda tinha mirrado como uma passa seca, e ja só estava aí: presente.
O desafio do olhar servia para fazer sombra do ardor do desejo, e mitigar o secar da alma. A altivez da voz era a brisa que nao deixava a imaginação quebrar.

Um monumento a um despojo.

Seca. e sem saber porque.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

adeus gentes

o rancor e a ira são os claros sinais de pequenez, e mesquinhez. de não conseguires gerir esse infortúnio da tua incapacidade, de não te domares para aprender e voar mais alto.
a indiferença um sinal sobranceiro e alguma alienação, quando te fechas nesse mundo de exclusivos, e ainda assim todos toscos e limitados.
mas é na compaixão, no perdão e na caridade que te dediquei, que te demonstrei a minha superioridade.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ozone (The Ritz-Carlton)




desfragmenta a pele em luz e recortes. mostra esse calor na face do mármore polido. Rodas-te o pé, em cima do salto, requebrando o tornozelo.

Um esforço dorido e endireitas-te perante o espelho, recolhes o cabelo em um nó, e reparas como se te nota o cansaço. Retocas a maquilhagem, molhas os pulsos e suspiras deixando-te ir na água que vai pelo ralo.

lá fora tomam forma vozes, tilintar vítreo no talher: "um amontoado de nada". Tens saudades de casa, da tua casa, de ti.
"bom..adiante" afinal foste ali por essa curiosidade esquizofrénica que te assoma.
os brilhos cegam-te a moléstia e voltas à pista de aterragem daquele bar. começas a fundir-te com o som do calor.

"Vamos divertir-nos" disseste tu a ti mesma. e nesse dia em que te libertaste dos teus medos, em que mergulhas-te sobre o abismo do desconhecido com um sorriso interno, nasceste de novo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

hold on



shine on

".....Your freedom,I cannot bear . I'll try to be immune to the sadness

(...)

I dream, you laugh.
I can remember how it started
One day, you'll see.. Details will make all the difference
I love you, goodbye
Now you know:  I’m gone

Shine on "


[you cannot bear my freedom,
you’re not immune to sadness and pain
we both laugh and cry. we remember how it started and we don't know when its ends. it keeping us alive.it killed us
I challange you. you paralise me. again and again.
When I stopped to look at you and turn off, you shake me and came on me.

hold on]


quinta-feira, 14 de julho de 2016

para-digma

from Wikipedia

"Paradigm comes from Greek παράδειγμα (paradeigma), "pattern, example, sample" from the verb παραδείκνυμι (paradeiknumi), "exhibit, represent, expose" and that from παρά (para), "beside, beyond" and δείκνυμι (deiknumi), "to show, to point out".
In rhetoric, paradeigma is known as a type of proof. "

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Inteiro

Ameniza-te ao meu colo.
Diz-me o que leste, o que ouviste. o que te fez feliz.
conta-me as verdades carregadas de pequenas mentiras que te fazem fantasiar.
conta-me com quantas bandeiras navegaste.
mostra-me as cicatrizes. beijo-te com suavidade.

Aqui não serás senão tu.

sem fingir que não há passado, ou que o passado não é presente.
deixo que as mentiras que te contas, sejam bradadas como verdades.
seja que as verdades que se encapotam com vergonha, sejam olhadas como mentiras.

Aqui podes ser o que sejas.
aqui, não serás senão tu.
e eu por isso, serei mais eu.

desertico

sopra quente.
a jornada vai longa e pesarosa.

lá fora, algures, mimetiza-se com o vento o petiz que se dobra junto ao monte.
cai-lhe um suor.
ou seria uma lágrima? só ele sabe.

zumbam as abelhas, crestam-se as ervas daqui a nada palhas. é o que eu ouço a partir dos meus olhos nessa imagem.

pesa-me a alma numa dor magra.
não tenho espaço para prostrar os braços, deixar cair o sorriso e a pasta de educação.

sopra quente.

não é uma morna brisa de primavera que nos enleva um sorriso.
é um sopro doentio, abafado, surdo.
queima a pele, seca o brilho, fenda.
é sal na terra, uma erosão lenta. nada brota.

este sopro quente que bate em mim há tantos anos, criou um deserto, esculpiu uma escarpa, abriu um fosso.

A barriga do dragão tem um mar revolto de ansiedade, de desejos, de sobressaltos, de emoções, de uma força contida.
um vai e vem de atitudes procrastinatórias.
o dragão arrasta um fogo que não solta.






quarta-feira, 11 de maio de 2016

Dá para sentir o tiro.


a insinuação é um cenário onde se prepara a caçada.

a fera alterna com o caçador caçando-o. o caçador domina a caçada.
confundem-se entre si, num jogo de camuflagem e simbiose.

o poder está em discernir a verdade da simulação, em simular inteiramente a verdade.
a aprendizagem está a cada passo, a cada caçada, sempre e sempre um pouco mais.

o domínio da arte está em atrair a presa sem a espantar suficientemente perto para a caça. reside em ser dominado pelo fascínio perante a fera sem sucumbir e ser devorado.

a insinuação é um cenário onde se prepara a caçada.

uma palavra amarra um rosário de suposições.
sem perguntar caçador e fera envolvem uma rede de passos, de acções e de não-acções, de quietudes.

a insinuação é um cenário.
uma base moldável onde se desenrola a actuação.
meras imposturas.
fumaças.
sombras.
um fingimento próprio.

palavras sem contexto. descrições sem imagem.
o caçador e a fera não se confrontam mas mantem-se suspensos nesse impasse encantador.

a imaginação é uma poderosa arma.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

letargia, nostalgia, selvajaria, estuo.

"sinto a nostalgia da imoralidade.”
machado de assis

é o legado da nossa cobardia, esta nostalgia impiedosa, castigadora. que nos perturba em cada canto deixando um rasto lascivo de sorrisos ariscos.

aquela imoralidade sã, palpitante, que se sentava à mesa, num sol inquietante.
deixávamo-nos embrulhar na letargia da satisfação que este estado de força nos dava. sempre no pré-coito. sempre a salivar. num limbo grotesco de sedução.
 (..)
esquecer é uma necessidade que se impõe, mas não sei se é deste estuo, desta febre sob a pele, esquecer é impossível, é algo que não deixo progredir.

dizes tantas coisas a calar-te.
 
......ainda assim, não me satisfaz nem sossega. a ansia é crescente e incessante.

salta a certeza que seria um absoluto vórtice e ao mesmo tempo a paz, e sossego que imagino e.. que tivemos num mundo único de um sabor e odor inigualável.
e toda  esta certeza transforma-se numa grande desconfiança, na incerteza.

não entendo.
a nenhum de nós.
e contrariamente, tao bem contextualizo os passos dessa dança que dançamos horas infinitas.
 (...)
impusemos um padrão. cada um para si. uma regência, e... : "Quase gosto da vida que tenho. Não foi fácil habituar-me a mim. Tive de me desfazer das coisas mais preciosas, entre elas de ti..." pedro paixao

mas sabemos a verdade: ríamos como loucos, e agora ninguém nos faz rir assim. nem permitimos que vá tao fundo, ou não nos libertámos tanto porque não queremos. chorávamos sem lágrimas a alma um do outro, a conturbada existência que tivemos, o sermos uns totais deslocados, uns marginais. sentimos o toque mais profundo e sensual de todos, sem nunca nos termos tocado. olhamos tão fundo da alma que doía, ao observado e ao observador. respirámos no mesmo compasso.
repudiamo-nos tanto porque o querer era tanto que mesmo tendo sido canibais não gastaríamos este apetite. 

num equilíbrio insuperável, saltávamos entre a delicia da imoralidade, da perversidade, do humor caustico. o sol a queimar, a dor masoquista, o jogo; e a inocência e  fascínio puro, o profícuo querer, a ternura, esse amor displicente, libertador, maior.

o monstro volta a cada circulo, a cada ciclo....[ http://capitania-mimosa.blogspot.pt/2010/09/amputacao.html ]

volta por um sinal. um sopro. um som. uma  palavra.
estamos impregnados um no outro.
tapados e escondidos debaixo do tapete da nossa sala de vivencia social.

o ultimo dia da minha vida podia ser assim, em ti. nada mais restaria para viver.



quinta-feira, 31 de março de 2016

em construção

Voltas-te a desconstruir-te.

Não te sinto.
Não estas perto nem longe.
Estás entre essas duas distancias, num limbo de permanência.

Estás audível, mas indecifrável.


aí na areia.
Já te escondeste nessa sobranceira crença de que te estas a proteger. Isolado na tua capa de snobismo que não é senão o alter ego da tua fragilidade, voltas ao teu primitivo estágio.

tenho medo de te perder de vista, porque arrogante como sou, julgo que sou quem te posso dar uma verdadeira e bem assente bofetada.   uma bofetada de calor. de verdade, de luz ou simplesmente de carinho, de dura realidade.
 
 


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

origami de boro.

Um quadrado  de papel simples e insipido, dobrado em vincos de precisão. Rematado com dobragens simples e especiais e preparadas para um resultado. Resultado para a vista de todos.

Nada do que parece é, é só a construção para uma imagem perfeita e harmoniosa. Suave imagem em que se interligam, analisam e questionam os vincos, a luz e sombras, o equilíbrio.

O artesão crítico não goza a imagem da sua criação. Nem o seu volume ou forma. Reconhece um caminho e uma obra, mas não se satisfaz. Desdobra até à exaustão aquela pequena matéria prima para lhe dar novamente a mesma forma. Examina em continuo e escrutina novas técnicas.

O papel gasto e puído torna-se uma frágil rede de fibras, um Boro japonês. Seguro pelo tempo e com o tempo contra ele. Redobra-se e faz do seu desgaste uma nova e diferente matéria. reconhece-se a marca do vinco e do tempo, mas apaga-se no novo desenho da sua textura reinventada. Reparado, reinventado, transformado. Sempre imperfeito. Sempre em busca.

 A beleza e a importância da imperfeição, a unicidade de cada dobragem na crua arte de encontrar puras formas, enleva-se até à destruição porque não atinge a perfeição.

 Uma esquizofrenia, um autismo.

 

Quando o artesão já não pode dobrar, por estar no abismo de reconhecer pequenas imperfeições inultrapassáveis, morre. Morre porque se alimentava da sua arte. e deixa de a fazer. como quem deixa de respirar. sucumbe à sua estagnação.

 

Vem num passo lento quem ensine sob a luz da paciência, que a perfeição é um segundo que existe no acto e não na obra.

Vem numa ensinança terna quem explique que a matéria prima não é só o papel intocado. Vem quem com firmeza guie para que o artesão olhe para o boro como uma arte em si, a base de uma nova construção evolutiva.

Vem quem com um sorriso mostre o abismo da forma mais negra e marque a regra dura da verdade para se descobrir o limite.

Vem quem fala de apreender e evoluir de forma paulatina para imprimir marca na profunda origem dos actos.

Vem quem apoie e serene. Vem quem exalte e torture.

Vem quem salva, quem sente e faz sentir. quem é solidário e superior. quem entende e quem questiona. quem salva.

Vem quem mais do que ser artesão é artista e casa da própria arte.

 

 

C. (de Coragem, de Coração, de Capitania...de C.)


Esperamos este encontro.

Vamos ver-nos e descobrir-nos.

Prometemos a limpidez de alma, a verdade e o amor incondicional.

ainda assim, desesperamos. Desistimos.

Tivemos raiva. e Tivemos pena.

Tivemos indiferença.

Mas tivemos uma vontade férrea.

Uma resistência insana.

O nosso amor era prometido. Era tao desejado.

Resistimos ao sarcasmo, as criticas e opinião. Ouvimos e digerimos.

Esquecemos tudo mas mantinha-se essa chama inapagável.

A presença no nosso coração.

A ausência desse amor, desse abraço. do calor do toque.

como um membro amputado, uma existência que nunca existiu mas esteve sempre presente.

uma saudade do que não havíamos vivido.

Resolvemos ter este caso de amor. Sem restrições e sobre todas as provações.

não é um amor de Verão. é um caminho. é toda uma vida passada e um futuro cheio de vida.

Coragem. Chegamos aqui!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Caixas de cenas

No beco havia o ruído do despontar do dia. Madrugada. fim de dia para alguns, fim de noite para os que passavam ébrios, inicio de noite para apaixonados recentes. 

As caixas eram descarregadas com ruidosa agitação.
O derreter acidentado do gelo, arrastava odores do peixe fresco. Odores que os peixeiros diziam não existir porque não os sentiam.
Os robustos carniceiros carregavam as meias carcaças com odes de virilidade, refutando que era um trabalho árduo.
Insolentes e desafiadores, os motoristas acotovelavam-se no balcão do bar, comentando cada gesto, cada elemento e politicando as atitudes e cadências em hierarquias e razões.
 
Todos se decretavam como seres afáveis. Eram uma compleição celestial de cordialidade, amizades, gostos simples e desfrute desprovido de intenções. Diziam eles. 

Perpetuavam-se assim os ruídos do despontar do dia. Esse raiar que se repetia em cada canto do mundo, igual a todos, e que se bafejava de diferença. Repetia-se, ainda assim. 
 
Batiam a madeira das caixas em reboliço para a retirada, já desprovidas dos legumes que deixaram aqui e ali marcas de sumo de esmagamento, folhas arrancadas, e até uma ou outra peça mais pequena tinha rolado e depositava-se quase imperceptível na encosta do lancil.

Sou de um desplante criticado por, encostado a ombreira da porta de serviço, ver isto e exprimir no rosto e no gesto o que se me aflora. Seja certo ou errado, nem quero saber. Deixo-me ir, saboreio os poucos momentos que não estando na frente de clientes, me posso comportar indolentemente.
Já tenho a alma cicatrizada e as mãos endurecidas.

Identificava o fedor que caracterizava os peixeiros, que ripostavam a minha franqueza sob o filtro das escamas do seu dia a dia. 
Assim é, não os sentiam. Claro que à distancia e de olhos fechados, guiados, fariam a distinção de este odor entre outros, mas quando impregnados em si, esses odores desparacem-lhe na mente.  
A lota era o seu mundo e teria de ser o mundo de todos os viventes. 
Dizem-se de palato simples. São tão complexos como os carniceiros e motoristas. Simples se veem na sua  vida e tolda-lhes o olhar que desviam com propriedade gritada todas as outras simplicidades. 

Escamam as almas na procura da pele, desgastando a beleza dos seus laivos de prata e de mar que saltam perante os pregos, perdendo o significado e distinção. O que é um peixe sem as suas escamas? mais uma carne branca.

O sangue que respingou da vitela, é diferente no olhar à gota grossa da carcaça de um porco que se engrossou na bata do seu fiel carregador? mas será em todo diferente. 
 
Dizermo-nos simples refutando a nossa humana complexidade, ou assumindo a nossa complexidade tornamo-nos mais simples? 

Com a mesma perspectiva, continuei na ombreira da porta, desenrolando o avental até que virei costas já no silêncio daquele sujo beco já no dia claro.

domingo, 23 de novembro de 2014

Comi fios de seda.

Tenho varias vidas dentro de mim.
Acho que não cabe mais nenhuma, mais nenhum ser ou nuance. Mais nenhuma variante de pessoa, de personalidade. nenhuma subtileza.
Vivi várias vezes e morri muitas mais.
As minhas, as dos outros. As que vivi com os outros.  As que os outros viveram na minha.
Como uma casa aberta, com as portas abertas, com as janelas escancaradas. Com a brisa a correr as divisões de cal e frescos esbatidos. Com o desgaste a adivinhar-se e os risos a escoar pelas frinchas da madeira viva.

Vivi várias vezes e morri muitas mais.E sobre essas vidas, no entanto, tenho a distancia dos imbecis.
Mas nao tenho a sua felicidade ingénua.
E roo a inveja devagar, como a lenha da madeira viva que se mata na lareira.

Bordaram as rendas na muselina da memória, devagar, impregnando de fios a frágil treliça. Iam pesando essas curvas feitas de pontos. Só se veem os bordados, essas flores, essas ramas, esses passaros e abstractos traços que tudo unem, pontuados de lantejolas e pailletes, em brilhos mágicos e fantasiosos.
Só se veem os bordados, fazendo desparecer a musselina que os sustentam.
Ao ranger da madeira, foram perdendo o matiz dos fios, da seda. Pelo uso ou pelo sol a que foram expostos. Enegrecidos pelo pó. Ou meramente porque perderam a novidade.

Essas vidas bordaram-se na minha, que de tão fraca ou rica, se escondeu nos fios, que estrangularam a sua trama, ou esgaçaram a sua constância. Cedeu quando foi preciso, mas nao desapareceu. 

Terei obrigado as bordadeiras a dar-me os seus fios e pontos? Arrastei neste jogo de saber a resistencia e flexibilidade da torção da fibra? Sim, despontei por duro prazer outras vidas em novelos que bordei na minha vida, vivendo tantas vidas.
A musselina que se mostrava e esvoaçava nas janelas à vista de todos roçava a madeira que rugia sob as vidas a passar. Pareciam hienas re-comendo as carcaças que ainda se mostram como corpos, sob a sombra dos bordados a se entrelaçar e a ruir, e fechavam essa casa onde julgavam habitar.

Abrindo e revisitando os meus aposentos que nao mostrei, que só eu usei e que permaneceram intactos perante o tempo, senti a madeira viva, pulsante. 
Foi sempre um jogo, ou nao.
Vivi muitas vidas e quiça nao vivi a minha, mas morri tantas outras tornando-me mais vivo.



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

entre vista


"Os vincos da pele acusavam o cansaço de demasiados fusos horários, demasiados quilómetros percorridos.
Percorridos e perdidos.
Na garganta e na voz surgia rouco o travo do ar condicionado dos hotéis, dos carros e das salas de reunião.
No olhar perdido nos cubos de gelo, a nostalgia dos jantares em lugares exóticos, a certeza de uma vida fora daquele ritmo frenético e vazio.
Estava sentado ao balcão no bar do hotel. Já era tarde.
Como pano de fundo, a cidade oprimia as janelas que tentavam libertar aquele cenário deliciosamente decorado.
Havia caras de muitas culturas, raças, tendências, credos naquele tão grande bar, mas tão intimo espaço.Cada cara, estava fechada em si mesmo. Mesmo que algumas delas estivessem acompanhadas.

Lá fora a humidade e o calor sufocavam.
O fumo que via seria dos tabacos das chichas e do ópio se ainda se fumasse nestes sítios.Não, o fumo era do entorpecer dos sentidos. Não sei porque via isto, nem como o fazia, mas via que cada corpo destilava vapor, odor, calor, sentimentos, repressões, desejos numa neblina turva. A sala estava densa….
Entre a adrenalina da aventura e a falta de coragem, estava paralisada ali.
Não sabia sequer o que fazia ali, como a minha cabeça tinha fantasiado este momento tão ao pormenor.Senti o pelos do corpo eriçarem.se e o racional empurrar-me para a arena.Afinal, tinha chegado até ali.
O desejo há muito reprimido, o prazer adiado vestiam-se de ocre.
Via-me entre as sombras reflectidas nos espelhos da sala.
Sentia sede.
O vapor que saía da minha pele era quente, húmido.Estava cansada, e não sabia que o ia encontrar. Não sabia o que dizer. Não sabia o que ia ouvir.
Tentei recolocar-me. Abstrair-me deste assoberbamento.
Aclarei os sentidos, mas não conseguia ver nada mais daquela figura.
Estava ali sentado.A camisa impecavelmente branca denunciava um dia sobre o corpo.A lã fria e o bom corte italiano, mantinham a estrutura do casaco mesmo no final da batalha. Os botões de punho pontuavam de luz e brilho esta cena parda. Não sei onde estava a gravata, se ali estivera, nem o tom dos sapatos.
Via a perna flectida no banco alto. As mãos telintavam o copo.
E eu não saia dali. Não conseguia convencer-me a entrar.
Principalmente porque não sabia como sair.
Procurei uma saída de emergência, perscrutar alguém que me pudesse acudir se aquilo tudo fosse um desastre ou corresse terrivelmente mal.
Como um afogado: antes de mergulhar no abismo, fascina-se, mesmo sabendo que pode não conseguir nadar para a segurança depois do torpor do impacto.
Não podemos prever a nossa capacidade depois de mergulhar.
Há um dia que vou sair da estrada, que tenho um acidente, que me desconcentro.
A velocidade, o abismo, o vicio, o abismo, sempre me atraíram. A falta de coragem sempre me contiveram e me mantiveram viva.
Continuava pregada ao chão de mármore. Parecia agora mole e lodoso debaixo dos meus pés…Segurava-me. A verdade é que estava a discorrer todas as desculpas para não me mover. Ou para rodar nos calcanhares e voltar a entrar no elevador, mas desta vez descer a cave, meter-me no carro e fugir dali a toda a velocidade. Ficaria noites sem dormir.
No arrependimento, castigar-me-ia. Creio que me vou punindo muito do que faço e do que evito fazer. Uma punição que não me dá prazer, que me desfaz.
Mentalmente, recordava como tinha deixado o quarto no 9.º piso. Como era. Como entraria de novo lá. 
Enchi-me de coragem. Esvaziei-me dessa coragem.
O fumo continuava a pairar. As silhuetas de fumo dum cinza rosado saiam da pele perfeita de uma magra asiática que deslizava entre as mesas a servir os hospedes. Baixou-se para apanhar um lenço de uma africana que ria continuamente. Viu-se-lhe a pele do dorso. O africano, que não ria, mas fazia rir debaixo da mesa, entesou os músculos ao ver a pele imaculadamente
pálida da asiática. Ela sabia. Desfrutaram em poucos segundos de um entreolhar que penetrava os corpos. Gozaram.
E eu sentia toda aquela reverberação. Tínia. Latejava-me a pele.
E a minha vibração foi sentida por ela. A minha ânsia, a respiração entrecortada. Deslizou até mim, e convidou-me com o suave gesto da cabeça a entrar. Estaria ali há segundos ou longos minutos.
O tempo absoluto não interessa mas o tempo vivido.
O negro olhou-me. Senti os tambores ao longe. Senti o odor da sua selvajaria.
A africana continuava a rir, abandonada a si.
Tinha que entrar, o orgulho imperava e eu não podia entregar-me a aqueles olhares que me questionavam a minha ousadia.
Já tinha feito adivinhar que tinha vontade. Que era curiosa. E no meio de uma valentia infantil, quase fanfarronice, tinha feito promessas veladas mas explícitos sentidos.
Caminhei pesadamente mas de forma a não ser ouvida.Senti a respiração do negro enquanto passava por ele. Senti o odor da negra.
A empregada, sob a farda negra, pulsava num suor imperceptível e perseguia-me com o olhar. Dentro da pele rasgada dos olhos, ardia.
Não sei se estavam estupefactos por ter avançado, pela coragem ou pela inconsciência e o medo transbordarem dos meus gestos.
Não sei se me queriam. Caminhei devagar.
Quando consegui levantar o queixo, uma mão grossa agarrou-me o pulso e sacudiu-me. Dei um gemido inconsciente e olhei para um homem, moreno, queimado pelo sol, de meia idade e olhos doce e perdidos no álcool que
inadvertidamente se metia com todos procurando companhia.
Um tuareg urbano. Um nómada. Perdido. Sem rumo. Atravessando o deserto urbano. Perdido.A asiática prontamente envolveu o cliente e libertou-me daquelas tremulas algemas humanas e como que a sibilar me soprou para seguir.
Tocou-me a pele e era como uma víbora.Fria, suave, deslizante, tentadora.
Ericei-me e recuei.Mas mais rapidamente andei até ao bar. Parei a menos de meio metro.
Uma brisa vinda de não sei onde, provavelmente da minha imaginação e medo, voou com  o meu cheiro, o meu fumo até ele. Pressentiu-me mas não me adivinhou.No momento em que levantava o olhar pesado, Toquei-lhe na mão.
Senti nesse toque a temperatura e a textura da pele. Adivinhei as veias e tendões. Ele sentiu-me o nervosismo.
Naquele segundo sabíamos porque estávamos ali.
Bebemos os dois malte. Repetidamente e de forma abrupta. Para atordoar.
Aqueles tragos eram o bilhete para a viagem.
Nunca soube, nem saberei o que ele sabia.
Mas sabia que naquele segundo sabíamos porque estávamos ali."