terça-feira, 17 de junho de 2014

sequestro

Dei-me conta de um tumulto tumoral dentro de mim.
Não há operações, extracções ou outras acções de bisturi, manejado por réplicas do Dexter ou do Hannibal, que extrairiam aquele volume.

Numa forçada esperança recorro aos meus braços e golfejos de energia para conseguir expulsar esta vontade. Esta ânsia assassina. Suicida. Este terrorismo interior a que me submeto cada vez que pestanejo.
Mas como num ciclo verdadeiramente vicioso, entre a luta que alcança a sua meta, a revolução vê-se sempre reforçada. 

O ninho de abelhas passa a ter vespas, e o mel se transtorna num ferrão que não se distancia.
Iminente morte, deito-me com a deliciosa ternura da angustia. As almofadas desta cama são a luta e a superação, os lençóis o desejo e a tentação.

Suo. Molho-me e acordo morto de sede…
Doente? Pois sim!! Febril e preso.

Esta existência está sequestrada em cada canto da minha existência, e aquela existência é em si o sequestrador.

Não saí!  Não quero que me deixe. Sucumbo.

Esta existência que habita em mim cresce e regenera-se alimentando-se de si, e extinguindo a sua vida.
De uma clara e plácida aparência, tinha um suave pulsar. Uma existência que se dominava entre os dedos. 
Cresceu.
Por vezes assoma-se gigante dentro de mim, em cada janela e em cada espaço. A todas as horas. Invade artérias e veias, mistura os sangues e a saliva. É o negro ser. Monstruoso. Violento. Fascinante.

Quando não aguento mais, quando arreio à sua soberba, quando no negro e na sombra já cresce o lodo, quando o quero revestir de repulsa e afastar-me, curar-me, torna-se intumescido, brilhante, saudável e corado...pronto a dar-se.

Na delicia e ao sol quente de palavras genuínas esta arvore cresceu, floresceu e teve primaveras subtis. Passaram sob os seus ramos verões com cheiro a laranja e a sal.
Entre as folhas, como pequenas páginas de livros, poemas cantados no sopro da brisa, aparecia um céu azul, incandescente. 
Tomava-me de assalto e cegava-me. 
Sorri muito nesta pura brincadeira. 
Sorri na lembrança destes brilhos que entravam em mim. Esqueci-me de todas as sensações. Embalei-me e adormeci sob as suas folhas.
Um ramo ou outro partiram, mas a arvore não parou de envolver. 

A arvore não deixou de crescer e de enraizar-se.
 
Mas na sombra que sempre existe para o sol ser brilhante, estava a humidade do que não queria dizer. 
Esta humidade alimentava a arvore, as suas raízes, rega a existência para que viva mais, mais forte.
Queria que este espectro fosse repulsivo. Que me afastasse. Mas a sua viscosidade, tornou-se mais agarrada as paredes das vísceras que a repelem.

Tomou parte de mim. Tornou-se em mim.

Presente, é indelével no tempo e na memória.

Presencia tudo e corrói com a suposição da sua existência

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