segunda-feira, 22 de março de 2010

caramba, há quanto tempo!!

Decidi parar. chamaram-me caústico, perigoso, obsceno.
Decidi parar.
Já não farei deste um imenso e inenarrável muro de escrituras atrozes.

Agora, serei mais um blog. Talvez até lhe mude o nome. Já não sou um capitão (alguma vez o terei sido?)

Vou mudar para uma mansão, ali perto das pedras gastas e sujas do entorno histórico desta cidadezeca. Também descobri que as amizades estão em sítios sombrios e estranhos. Também descobri que apesar das tuas ausências me doerem sou perfeitamente auto-suficiente e prefiro estar sozinho que assim não me canso a esperar algo de vós.

pronto. já disse. contentes?!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Pés de barro para grandes empreitadas

Hoje estou num completo bom humor.

A fraqueza é uma qualidade que me inspira curiosidade.

Espreito os comportamentos dos fracos com ávido interesse.
Sempre aprendo.

É maldade pura, eu sei, mas por vezes chego mesmo a criar cenários, para que nos biquinhos dos seus minusculos pés de barro, gritem a coragem e audácia dos seus movimentos.
Depois aguardo quieto que tudo apure, coloco no tempero a minha ansiedade.
(e assisto a isto: o perfume da angústia, da espera, do falhanço anunciado saí por todos os poros destas personagenzinhas. Eu acho graça.)

Normalmente quem envereda por grandes empreitadas, de vista farta, teima em colocar-se em bicos dos pés, falar muito e com pouca consistência (mas com muita convicção) e badalar as diversas plateias os seus feitos ou o que está para ser feito.

Ora o galo que alto canta, enrouquece rápido. E depois - como criou o hábito de berrar - apita aquele ridiculo som de galinha depenada.

Acho graça.
Normalmente o que mais admirámos veio de fracas figuras, timidas, encolhidas e que coram nos elogios. Nas grandes empreitadas vemos barrigudos de bigodes proeminentes, mas que calçam ridiculos pés com pequenos sapatos de verniz. Espero com paciência que o verniz estale, descasque, esfole... e depois com uma falsa simpatia ofereço os melhores elogios à sua fraca condição como forma de humilhação que tem de ser aceite para não demonstrar que reconhece a sua minuspresença.

Acho muita graça.

Racham-se os pés de barro, mas não sustentavam mais que fumo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

nuas em barda

Continuo orgulhosamente só.

...no caminho da minha mente.

Tudo o que renego e desejo controlar, mas não posso ter, estimula-me os músculos e a mente. Entro em escalafrios, calores, palpitações, naúseas.
Nao me consigo controlar. Mas ninguém o sabe.
Disfarço numa impiedade que me traí. Porque mesmo depois de sentir, convenço-me que não é nada epara além de mero acaso do ócio.
Disfarço a erecção por baixo da bata manchada de sangue.

Andam nuas à minha frente, mostrando os seios firmes e as carnes rosadas.
Mais que renscentista, mais que barroco. Quase burlesco.
Nada disso me dilata a pupila.
Interessa-me quem está na penumbra, na palavra não dita.
Quero devassar essas verdades sem perguntar.
Levar ao extase a disforme senhora que só se mostra no nevoeiro.
Possuir.

Na verdade sou um canibal de almas e de segredos.
E aguço-me com a espera, com a preparação do banquete. Testando a minha habilidade de manusear, manipular, maquietar a realidade e montar a armadilha.
Depois do momento não há prazer.É uma verdade absoluta.
Valerá a pena degolar a ave que guarda a jaula? seria mais uma (verdade) nua. e juntaria-se à barda.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Desabafo sobre a demasia

...em demasia me parece a estupidez acumulada num ser com quem tenho de partilhar parte dos meus pacatos mas ferozes dias...

Só registo isto como um desabafo solidário àqueles que tem de tratar com essa espécie em expansão que são os estúpidos. Noutras paragens já testei este modelo, e resulta. é um quase-documento cientifico.

Passo a explicar: na descarga dos camiões de fruta, verduras, carne, peixe ou outros víveres, sou obrigado a cruzar-me e entediar-me em conversas absurdas com um ser de outro restaurante.
O outro restaurante é como se fosse uma segunda secção. O Dono é o mesmo para o qual cozinho.

Tenho de falar e não ignorar, porque mandam as regras de boa cortesia que troquemos trivialidades com os pares de outras secções. Até de restaurantes alheios ao cluster.
Se sou um embestiado que na verdade gracejo umas palavras com os transportadores, tenho de me obrigar a falar com os pares.

O importante ressaltar é que há neste par algo que me revolve as entranhas, e isso deve-se ao facto de ser um ente em que prolifera uma tamanha estupidez e demência que até chego a assombrar. A ignorância que exubera dava para uma boa dezena de mentecaptos. Mas este ilustre carrega sozinho este monumento à estupidez, e espantem-se: faz luxo de a deter.

É um joguete do Dono. Pausadamente devora-lhe a alma ao vesti-lo com um pequeno esterlato de lhe visitar amiúde o seu estabelecimento e isso fá-lo saltitar na sua fraca figura.

Apesar de confeccionar comida fraca, desprovida de imaginação e qualidade, e que com frequência acarreta problemas gastro-intestinais aos clientes e subordinados, o Dono usa-se dele para maquinar a hostilidade dos pares, como eu.
Não que o Dono desprestigie as demais secções apesar de não lhes demonstrar agraciamentos, mas a criatura enlevada em visualizações mais frequentes do Dono, usa um circuito de intrigas e distorções repugnante, recriando intrigas e desentendimentos desprovidos de verdade e base.

Ora, perdera esse poder de incomodar no momento em que lhe agraciei os paladares e menus . Levará a secção à ruína, e essa fama alargar-se-à a todos os restaurantes.

E com palmas e sorrisos, com malabarismos falsos passo mais depressa esses cinco minutos de contacto.

Assim se agraciam os estúpidos, especialmente aqueles que a carregam em demasia.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Orgulhosamente só.

Não sei porque abri o meu caderno de notas. Não me apetece escrever. Mas apetece-me partilhar a miséria dos meus dias. Ou não.

Conta-se por aí que aqueles que partilharam mesa comigo, que se sentaram no meu festim, se reúnem em festa na beira-mar. se por um lado me enfada a alegria exorbitada da pré-época, ou seja, do pré-momento, por outro lado me corrompe não poder ser analista nesse festim.

Adiante. Enfada-me não me divertir com a pequena inteligência que planeiam compartir nesses dias. Isso realmente me enfada, dirão vossas línguas que pode até ser envidia.
Como sei que não vou estar, atiro alguns grunhidos no burburinho de missivas.

A verdade é que sempre que rumo a estes estares em conjunto, ainda mais me enfado.
Mas a verdade é que não poder sequer aniquilar aquelas criaturas vãs com a minha agudez, com a minha perspicácia e não poder corromper as suas alminhas com a minha presença gloriosa causa-me um certo enfade, porque perco a oportunidade de me satisfazer com a minha ermitagem.

apre. não devia ter começado a escrever. é certo.

São amizades de outrora, que guardo com repulsa mas rego na memória para não esquecer. Vivo a certeza de que sou de outros mundos e vidas, de outros pensares e atitudes.
Olho sobranceiro sobre a multidão.
Voz grave.
Palavra pausada.
Fumo lento.
Sou maior, e quero-me sozinho nos pensamentos.

Não me quero corromper. Só largo ácido sobre a populaça com que convivo de vez a vez.

Sou uma besta. A vaguear entre o feliz e o insano. Orgulhosamente só na minha mente e no meu passo.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Músculos no rio

Estava a zombar o calor entre as varejeiras.
Nas velhas paredes sentia-se o suor dos poucos transeuntes como um eco, porque não corria ar e o odor estagnava-se nas nossas narinas.
Eram duas da tarde e tínhamos limpo as mesas dos clientes que não tinham aparecido.

Havia restos de vida nas ruas. Não era vida a sério. Eram os restos de ontem, de anteontem. Houve vida ali quando esteve mais fresco e a conversa fluiu ou o álcool atordoou o termostato corporal.

Tinha sido sério o caso. Houve barulho e polícia. Desmembraram a família porque nunca o fora.
O facto é que as coisas acontecem porque o cenário põe-se a jeito e têm de acontecer.
Aquilo fora uma desculpa. Amantes e dinheiro era clássico e ninguém desconfiaria ou duvidaria. Era passional, e portanto não tinha de ter lógica ou justificação oficial no verbo da maledicência, ou do mero entretém quando se tornasse público.

Também o forçaram a ser público, até ao pormenor sórdido das quantias pagas nos crimes.

Não se importavam. Não queriam saber. Eram co-habitantes. Não família. Nem aparentados. Parece-me até que nem conhecidos.
Mas o embuste social era perfeito: muitos, amigos, sempre juntos, animados.

Quando se importam não se juntam para sentir saudades e para ter o que contar.
Quando tive coração era assim.

Descascava a fruta com o cutelo porque estava mais à mão e deixe-me ficar a pensar nisso.

Se se importassem entre eles, deixavam - depois de todo o alvoroço - correr até às últimas importâncias todas as vinganças e afrontas. Porque achamos que tudo o que lhes vai acontecer é merecido como consequência para quem nos infligiu. especialmente se for "família".
Tretas.

Perdoa-se? Não. Dá-se com mais força. Porque também está a doer.
O ser sacia a sua fome com a fome de quem lhe roubou a comida.

Se há recuo é porque o protocolo exige esse fingimento...e de forma a parecer sentido.

Não existiam como família porque se rivalizavam em todos os seus actos. Até à ultima instância. Ou até nem isso. mas era assim que os obrigavam a ser.
E os outros membros tiraram partido e lados, barricaram-se de um dos lados em vez de se permitirem estar no campo de batalha desarmados e expostos às respingas de sangue alheio, mas também seu.


Desmembraram a família porque nunca o fora.

Ficaram felizes para sempre.

Boiava no rio pardacento uma massa de músculos.
Fora uma vaca que morreu de calor.

terça-feira, 24 de junho de 2008

De pedra a pós, passando por mós.

Caí na tentação fácil que já vos havia contado que era o meu pecado.
Faço-me de pedra e de escopo me dedico a criar forma. a criar. já errei várias vezes. Volta que não volta, vejo-me outra vez a braços com isto.

Deixo crescer a barba, não me lavo, dedico-me inteiramente à carcaça para tirar um corpo e depois vida. O frio inox da banca é o reluzente leito da minha mente.

Mas como sempre que nos dedicamos mais aos pecados do que ao que nos contém e educa, deitamos por terra as juras. E desanimamos. O desalento apodera-se de nós por vermos que somos uns merdas e que já voltamos a brotar suor e sorrisos. inebriado. bêbado. extasiado. já me deixava levar por uma coisa chamada paixão e que só faz mal aos fígados.

Passei a cortar-me de tanto esforço no dessossar as presas. Dediquei-me de mais.
Vi.
Desta vez fui mais rápido...mais rápido a recuperar a lucidez.
Voltei para onde me queriam: cortar. mero cortador. mesmo que o mais experto, mero cortador.
O problema estava em mim.
Mas agora já não me preocupava. Ocupava a minha mente sórdida em outros entretens. Inventei a estes Sujeitinhos um faro intocável. Rodeavam as presas a procura do cheiro da morte, e aquelas que gozavam de vida sentiam-se morrer. Era um jogo tonto. Acreditamos que temos poderes ou que os outros os tem.
Não tem arte. é o faz de conta assumido como verdade.
É um jogo tonto.

Vou voltar a escrever. Mas vou deixar de contar os crimes.

Talvez não. Não resisto a ser fraco.

Deixo agora o cutelo, as facas e as pedras. reduzo a pós a existência, e contarei só o relevante para a vossa. existência e desistência.



sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Cutelos e guarnições





Jamais traí. E aquilo a que julgueis traições, foram mudanças de estratégia, rumos novos, caminhos descobertos para atalhar e chegar de melhor forma ao principio traçado.


Ninguém poderá vislumbrar as minhas razões, porque não privam com o tear que ticateia no meu cérebro.



Um principio a ter em conta é a lealdade. Mesmo que seja a um souvenir das minhas experiências,e esses postais ilustrados que guardo na gaveta poeirenta da memória são feitos de pessoas. Energumenas ou não. Pessoas, entes.



Os loucos que noutrora foram adjuvantes e parceiros de quimeras condenadas foram a minha quadrilha.O clã como o disse. Coeso. Prometi-me a mim mesmo não surrupiar mais enternecimento advindo de qualquer parentesco de amizade, e para isso não alimentaria os animais enjaulados. Porque enfraquece. E não fosse, qual milagre da natureza cósmica, nascer-me de novo um coração.



Encontrei um bando. Promíscuo e sórdido. Acidamente sarcástico. Cortante e desprezível. Servia-me perfeitamente.



Destes posso contar-vos que riam ruidosamente quando trocidavam o mais pequeno, pacato e insignificante insecto rastejante ou voador. Não o matavam, nem desprezavam. Gozavam de requintes de malvadez na tortura que lhes provocavam gozos de luxuria.

Não seria o meu solo aquele. Já o havia experimentado, aquando de outra velhice.

Mas serviam perfeitamente para colmatar a falta de oralidade que me impunha no trato com a massa que zumbia à minha volta.



Gozo de boa forma física, pelas carcaças que reduzo em golpes secos de cutelo na banca de inox. Acompanhar estes alucinados nas suas suturnas viagens ao mundo negro do alcool e do crime não representava para mim qualquer esforço.



Não seriam um clã e nem muito poderiam a aspirar ser o meu.

Dei-me conta que se referiam a mim como um ser esverdeado a quem gostariam de integrar. Bradei que não os queria e por isso não me podiam querer.



O menosprezo, desdém excita exponencialmente o desprezado. Cria-lhe a sede e revolve-lhe o sangue. Manipula os sonos e apetites. Era o que tinha acontecido. Viciaram-se. Seguiam-me mergulhados numa expecturação que saia da sua excitação.


Tinha um bando. Tinha-o na total ascenção da palavra. Houverá um momento em que, como sempre, um dos cretinos se insurgira num motim isolado. Parti-lhe uma rótula e deixei-o coxo para todo o sempre. Havia crepitado dentro das suas cabeças o gozo que tirariam deste acto bárbaro, sadismo como meio de elevação. Ao próprio ensinei-lhe num falso salivar os prazeres do masoquismo. Idolatraram-me.

(...)

Houvera um tarado convencido de mais arte de manipulação ou mais engenho e persistência na grelha do que qualquer outro que me propos sociedade. Estudei o caso. Quando da primeira queimadura - e era um leve esquiço daquelas que já me marcavam as mãos - guinchou como um ganso entalado numa armadilha de ursos.

Mesmo com este fracasso continuava a rogar a sociedade: "Seríamos um mundo" dizia ao mesmo tempo que me mostrava a pequena ampola que nem marcas deixaria. Para ganhar importância juntou outras cicatrizes, dizendo-se capaz de suportar todas as dores.

Ora todos os desta profissão sabemos que o pior nas cozinhas apertadas e carrgadas de testosterona prestes a explodir sob o calor das grelhas, é a gritaria.

Soube nesse dia que não faria sociedades. E que queimaria a face do primeiro que ousasse levantar a voz no meu reino.

(...)


Servia-me este bando. Para experimentar todo o saber e suposições que cresciam dentro de mim. Essa eterna dúvida dos limites do pensar. Sob o meu próprio esgar maquinava lobotomias quimicas, quando não as mecânicasO bando encontrado e oferecido pelos deuses para as minhas experiências sucumbiriam as experiências que me conduziriam ao âmago e origem das gritarias...servia-me e era todo meu.




terça-feira, 7 de agosto de 2007

Sujeitinhos

Sentara-me no alpendre.
Abria as ostras com a navalha com que degolava vitelas anémicas.
Sugava a polpa das conchas asperas, deglutindo aquele manjar asqueroso.

Fazia isto por rotina.
Para me domar, para me controlar. Para refrear as demonstrações do que me repugna ou do que me entusiasma.
Afinal estas reacções eram pavlovianas, pois havia arrancado o coração e não havia em mim resquicíos de querer ou sensação.

O calor era muito e o odor das traseiras nauseabundo. As moscas eram enxames.
Semicerrei os olhos num torpor que alimentava.
Devo ter sonhado. Tinha um novo bando...uma cambada.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Entre explosões e empadões

Não me vou envolver de desculpas, nem pedidos de clemência. Não.
Queiram voces saber que larguei as lides.
Deixei o touro sozinho a bradar numa arena (agora) mais vazia que bailarico que terra perdida.
Ah! E cobarde sou eu, apesar da barba que me mostra a idade e sofrimentos, e não aspirasse tanto a produzir o cheiro morno do Pão e já o teria feito num passado mais longínquo.

Adiante.

Perdi-me de amores pela minha profissão e como já vem sendo hábito e histórico, sempre que alguém se perde de amores, acaba em separações tortuosas.
Deitei a bata ao chão.
Não queria aquela subserviência cega, aquele cinismo decrépito, aquela paz podre.
Até porque me achava maior.
Agora de longe vejo que era mais um, com engenho é verdade, mas mais um.
Apontaram-me brilhantismo. Mas castigaram-me como se fosse o mais torpe asno em acção. E como? reduzindo-me...
Mas "tão ladrão é o que rouba, como o que fica a porta" e eu que era o Senhor Roubado, fiquei a porta ao mesmo tempo. Portanto a mim me culpo.

Mas não é para a introspecção que aqui estou. Mas sim para deitar o fel. Para discorrer na arte da vingança. Para interpelar avisos.

Larguei o alguidar, os bolos, o forno, as formas, o açucar e farinha. Larguei cruamente o fermento. Sem olhar para trás, com aviso da despedida, iludi os que me seguiam e larguei-os à própria sorte.
Arranquei o meu coração e queimei-o para não mais o recuperar.
Rasguei os sonhos.
Amarguei-me e vendi a alma.


Os gourmets ficaram estupefactos. Os fritadores de rissois atónitos.
"Quem faria os bolinhos?!" ouvia-se em surdina nos corredores da corte.
Aguavam agora que perdiam.
Sacudi das calças a farinha.
De nobre voltei a ouvi-los.
Sorri e na malevolência que me torpia o pensar dei-lhes a cabeça que queriam.
Planeado ou não, fui cruel. Cruel com os máximos abutres que me perseguiam a carcaça e com o meu seguidor mais voraz.

A esse e por respeito à arte que professara, ensinei-lhe o caminho ao armazém secreto e deixei-lhe o medidor de açucar, qual Graal tão questionado.

Mas as forças do desejo não o acompanharam.
Perdido entre formas e arames, não elevou os merengues e queimou os coulis de fruta.
Entre drogas sucumbe, não aguenta as queimaduras do forno.
Sobrevive na tormenta de não ter paladar, segredo que a nínguem confessa.

A quadrilha fora destroçada. Tornaram-se abjectos, obsoletos e ridículos.

Agora à distância de um quarteirão vejo, rebolosos em lamas, que se afundam cheios de artificios.
Comem-se em abraços, esfaqueiam-se em mentiras, e na surdina os Mestres Gourmets calam a miséria à espera (espero eu) de enfraquecer aqueles que, em canibalismo, depicarão.

Cairam as portadas. A tinta somesse da fachada. O letreiro, outrora viçoso e luzidio, corrompe o orgulho.

Entre eles se cobrem, entre eles se ma(ltra)tam.

Passei a assador.
Animais inteiros se debatem sob as chamas que tutelo.
Entre eles os meus comparssas.
Prestam-me vénias e escarnios invejosos.

Não tem arte, não tem deleite nem glória, mas tem poder.


E...o clã quer voltar a ser meu. Seria a estocada de morte.
A arena ressoa ecos de vazio.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Um passo atrás para ver adiante

Ora tínhamos ficado em que era O Pão o que eu incansavelmente aspirava. Fuçava como uma besta amansada a procura de osso com carne, ou deixando-me de lérias tipo mergulhador à procura de tesouro.

Entenda-se bem, que já o disse, não andava nesta azafama porque a nobre profissão de pasteleiro fosse pouco digna, mas (e isto é uma revelação envolta em açúcar pilé) porque quando um pasteleiro faz e mostra bom Pão, ser pasteleiro é uma ode ao Olimpo! Sim, sacudam os aventais, porque espera-vos um pedestal!

Claro que entre as barbas se me denota uma egoísta intenção, de demonstrar a esses fritadores que tinha razão! Sorrir e sair de acção no auge, envolto numa nuvem de branca farinha de trigo moagem numero três!

Contudo andava eu cego, trôpego e mentalmente incapaz quando me meti nesta aventura condenada.

Mandei os meus melhores bolos a essas criaturas mais perto dos deuses. E já contei como era vista a graça. Mas mandava, repenicava as criações, atiçava a minha quadrilha a criações mais faustosas e deliciosas, complexas e indecifráveis, e estes assassinos carinhosos empurravam-me mais e mais para me aproximar d’A Padaria. Tivemos momentos tão loucos e incontáveis que julguei que nos imolaríamos em conjunto. Creio agora, neste lapso de lucidez, que andávamos drogados...é melhor não reflectir sobre isto...

Os gourmets, sem eu saber, metiam com uma forquilha os meus amados bolinhos pela goela dentro, antes que aos deuses lhes cheirasse. Empanturrados e já de olhos esgazeados, limpavam os restos que lhes corriam pela face nos folhos das suas mangas renascentistas. E de feito em feito, de comezaina em comezaina, essas criaturas foram destruindo a seu bel-prazer as subtis distinções que se apreciam nas execuções pasteleiras.

E todo o rédito da nossa arte para essa odiosa amalgama humana era igual, disforme e indistinto. Continuávamos nós, sem a certeza de gás para o forno, farinha para os bolos, ou sustento para as pernas. Tudo era imprudentemente próprio de destemidos alienados. Queríamos chegar ao Pão. Ver a receita, o segredo, tocar-lhe a textura...queríamos fechar O Ciclo.

Lampejante aparição

Parece mentira, uma treta, patranha, albugem, burla, peta...parece, mas não é. A ausência tem mesmo a ver com isto, a desculpa mais esfarrapada, gasta e usada do quotidiano: falta de tempo.
Ouço, com ligeiro desdém, vozes unânimes a contestar: “falta de tempo?! Já lá vai mais que uma fiada de 30 dias! Ninguém tem tanta falta de tempo!”

Pois não terão aqueles que, qual rábula das pedras grandes-pedras pequenas-areia-água dentro de um frasco, organizam-se muito bem e encaixam tudo nessas míseras 24 h do dia, que na verdade são mais-ou-menos 12, porque eu tenho de dormir e comer.

Ora eu ando de alguidar de fermento para bolos debaixo do braço, escada acima escada abaixo, limpando o suor que me caí pelo rosto e me empapa a bata. Sempre a congeminar se ponho mais lenha no forno, ou se largo esta vida. Se salgo ou adoço o preparado. Perco-me em pensamentos vãos. Afogo-me na frustração de ter coisas para fazer e nem disposição, nem mãos limpas nem espírito aberto. Entendem porque não dei com as caras neste pasquim? Ah! Fosse eu um trabalhador organizado...mas calhou-me o tango certo de quem amassa, não de quem põe na montra da padaria!

Seja como for, tinha de aparecer. Não porque tenha prometido, mas se assim largo os segredos negros deste covil, salvo a minha alma e o destino de quem aqui se mete.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Adjuvantes

Não poderei passar à trama sem com verdade e devida admiração, passar um breve traço desta pena informática, pelos adjuvantes da tão lendária arte de bem-fazer bolinhos.

Note-se que nunca este périplo alfabético será suficiente para agradecer, engrandecer e indicar todos os adjuvantes, nem terá largura de capaz de abarcar os feitos épicos de todos estes anos. Pois para isso teria de certo de igualar-me em páginas e inspiração ao senhor do colarinho em acordeão e o olho arriscado. E as musas do Tejo não me dão confiança...

Mas mesmo assim e para o esclarecimento de quem me escuta vale a pena espreitar essas mentes ardilosas, até porque ajudar-vos-á a pintar esses cenários maquiavélicos de que vos falei desde o primeiro momento. Além de que confio a minha sorte a ter de me cruzar com esta comitiva deverás perigosa e pela minha pele não poderia deixar em vão ou em forma de esquecimento a referência. E mesmo que me refugiasse na justificação de que não abordei a existência deles porque é óbvio entender que tinha de ter ajuda e que até era claro o reconhecimento da sua morada, não escaparia à decapitação! Seria uma atitude classificável como a de um fritador de rissóis!

E nem no momento de estalar o óleo com as bolas fermentadas de Berlim me quis comparar a esse clã! Quero deixar claro que não é por desdém que o digo, mas por entender que os fritadores de rissóis são...como diria...são uma classe à parte! Porque fritar rissóis deita cheiro, faz barulho e providencia ao seu executante um ar gorduroso e desgastado, ou seja transparece ao espectador (e faz-se força para parecer) um trabalho árduo!

Como disse antes ser pasteleiro não é fácil, fazer bolinhos pressupõe uma dedicação feroz; porém é uma profissão mal entendida e mal amada.

Não posso por isso deixar de louvar a todos os pequenos psicopatas que se dedicaram a seguir-me. E mais, essas incautas criaturas são r-e-a-l-m-e-n-t-e inteligentes, dedicadas e proveitosos talentos escondidos. Apesar de desprovidas de senso de esperteza, senão seriam outra coisa.

Poderiam fazer qualquer coisa. E fá-lo-iam certamente muito bem.
Até mesmo...fritar rissóis.

Mas a verdade é que o senhor da ordem, o que distribui as tarefas pelos mortais (sim, esse, o verdadeiro special one) reservou-me esta caterva fiel, expectante, grandiosa e modesta.

Estes seriam os Meus Pasteleiros.

Os gourmets animavam o espírito de equipa, mas não suportavam A equipa. Queriam indivíduos para mais facilmente vota-los – se assim fosse conveniente – à ruína. Como os predadores preferem atacar os que estão isolados.

Unidos crescemos numa quadrilha odiada por todos. Coesos e impenetráveis, com um linguajar próprio, cheio de piadas aos cinocéfalios que nos rodeavam. Não perdoávamos um movimento em vão. Atiçávamos com profundas afectações de perfeccionistas a incredulidade dos restantes: “Mas que dizem eles? Porque não se queixam? Porque querem ser perfeitos?”.
Ninguém armava chantilly como nós! Ninguém o mantinha apetecível sob calor e pressão! Quem poderia fazer aquelas imensuráveis torres de profiteroles? Só mesmo Estes Pasteleiros! Pela genialidade, pelo dom, pela loucura enraivecida que gera pormenor em circunstâncias deverás adversas. A verdade é que de vez em quando passávamos as marcas e chegávamos a ser insuportáveis, mas isso agora não interessa nada.

Vencemos todas as batalhas nestas fornadas. Fui um privilegiado.

E enquanto ganhávamos distancia, sabíamos saber algo que mais ninguém sabia.

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Fornadas e aspiração

Durante todo o tempo tinha feito bolos. Maiores. Menores. Com e sem creme...assim como as bolas de berlim.
É verdade que por vezes havia biscoitos esturricados porque tinha perdido a mão, e o forno estava demasiadamente quente. Mas também tinha tirado fornadas de deliciar a plateia.

Controlavam-se com as palmas, pois os gourmets não se extasiam com bolos, bolinhos e bolachas. Faziam por aparentar serem verdadeiros degustadores, mas a verdade é que os apanhei umas quantas vezes (se calhar até demasiadas) a comer aquelas impressionantes piramides feitas de restos atrasdos de outros bolos.

Mas não me proponho aqui a apreciar o percurso destes...gourmets! Por isso, adiante!

No fundo, graças a antiguidade que trago nesta profissão e nesta vida, com a sabedoria que me deram as queimaduras já indisfarçáveis que se me notam nas mãos, reconhecia naqueles esgares verdadeiros "OHHH"s de admiração pela arte, paciência e técnica que eu apresentava ao transformar aqueles míseros recursos em algo comestível e de sabor verdadeiramente reconfortante.

Percebi que os meus bolos eram como ar que respiravam. Não me deixavam investir num forno novo, mas pediam mais e mais fornadas!

A vida de um pasteleiro é muito dificil, não julguem!

Um dia tive a ousadia de dizer: Quero fazer pão! Pão verdadeiramente saboroso! Perfumá-lo com ervas finas! Fazer pão de passas! Fazer algo que, para além da admirável quantidade e do enebriante cheiro, seja a sublime compilação do sabor e da simplicidade! O Pão!

Ora aqui é que eu ultrapassei a marca!! Não estaria demasiadamente avisado para saber que quem faz o pão são os deuses?! Que ousadia a minha! Quanto mais não fosse e com sorte, poderia ter a benesse de amassar arduamente aquela montanha de farinha-sal-água empurrada violentamente por um fermento que não deixa o tempo descansar.

Tu és um pasteleiro! Não (e nunca - vim a saber mais tarde ) serás um Nobre Padeiro!

quarta-feira, 28 de junho de 2006

no dia em que me saiu a sorte grande

Pois até perece mentira. Nunca fui dado a grandes sortes...não me posso queixar, pois a minha também não é pequena.
Andava eu aí de beiço caído, a pontapear as pedras da calçada, para ver se debaixo de alguma eu descobria a solução.
Meses e anos. A fio.Desfiando esse cordão de dias e noites incessantes.
Emagreci. Engordei. Fumava. Deixava de fumar.
Arquivei. Arrumei e desarrumei.
Sabia que me tinham tramado.