quarta-feira, 14 de julho de 2010

toca e foge

O conceito toca e foge, foi algo que apareceu numa bancada das minhas cozinhas.

Há já algum tempo, estava a gritar aos aprendizes pela sua total inoperância que me enlouquecia. Ouvia o crepitar das brasas no grelhador e o som metálico da faca na bancada de inox, porém os clientes reclamavam ruidosamente as suas refeições que tardavam em aparecer. Chovia lá fora como torrentes jugulares e a cozinha escurecia após cada relâmpago.

Nada corria conforme a ordem militar e precisa impunha,aquela ordem imposta por treinos que traduz cada movimento numa precisa necessidade para a seguinte e por fim traduz-se em resultados a manifestarem-se em segundos previstos no primeiro movimento. É assim que uma cozinha deve ser.
Estávamos perante uma total desordem. Estava capaz de matar os incapazes que balbuciavam movimentos inúteis naquela pressa imposta pela pressão dos camareiros que faziam rodopiar as portas giratórias! Os pedidos esvoaçavam cada vez que o maitrê batia energicamente na banca reclamando os seus ossos bucos ou a dourada em crosta de amêndoa. Nada funcionava.

Sabiam que poucas coisas me tiravam do eixo dominador, mas a ruína e o fracasso era uma conjugação que me faziam reagir.

Agarrei vários pelos braços, e sacudi-os com a força do meu corpulento e furioso estar. Coloquei-os em cena e repeti-lhes num tom grave que iriam padecer de cortes ferozes se em dois segundos não estivessem os pratos na banca do maitrê.

No entanto percebi algum tempo depois, e quando o número de papéis deixava de acumular-se na bancada, que um dos pouco profundos entes, corria e trazia pequenos alimentos à cozinha. Quando lhe perguntei o que era aquele passeio disse-me "estou a trabalhar!". Na verdade, parecia. Mas na verdade, não era. Aparecia, mostrava-se e quando chegava a hora da verdade fugia.

Tal como as mulheres que seduzem e não consumam, que tocam mas não acariciam, toda esta atitude é nauseabunda. É revestir-se de uma verdade que não se assume. querem ser castas vestidas na pele do lobo.

terça-feira, 13 de julho de 2010

parece-me que...

Parece que tenho de voltar a narrar histórias da minha cozinha. Há coisas que não sei contar de outra forma.

telha

estou de "telha", que é como quem me diz "estás com a mosca", ou como se diz ao pequeninos "com uma birra".
Depois de muito me esmerar, organizar e aplicar, tenho tentado infinitamente mas não consigo postar durante o dia. 2 minutos em cada período de trabalho e teria material para partilhar.
não consigo, e não tenho muito tempo ou condições (agora que mudei de casa e tenho uma infinidade de coisas para fazer) para me sentar aqui. Mesmo que o Capitania me mereça muito.

Não é mesmo caso para estar com uma grandiosa telha?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Temos tantos assuntos

Temos tantos assuntos, que depois não temos assuntos nenhuns.
A blogsfera está recheada de repetições.

Mas mesmo assim há muita gente a publicar coisas interessantes, bem escritas, leves, refrescantes.
Há muitos assuntos para partilhar, mesmo quando não têm assunto nenhum.

44˚ C.puffff....

Desfaço com o calor.A minha tensão, não superior à de um passarinho pequeno, não me permite ser exuberante e chego a sofrer. Mesmo assim faz falta na minha vida esta letargia obrigatória. Tenho nostalgia mesmo antes de chegar o fim do verão.

sábado, 3 de julho de 2010

não percebo

Não percebo as pessoas que tem as oportunidades à frente e queixam-se de que elas não lhe batem, não as castigam, não as forçam a agarrá-las.
Não percebo porque essas pessoas se queixam que não querem estar como estão.
Não percebo nem tenho feitio para não as fazer pensar, para não as questionar.
Que ideia tão absurda achar que se vai ser dono do mundo sem se sair do quintal.
Não percebo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

estiveram 32˚C

"a" frase

Uma palavra sem uma ideia que a sustente, é inútil.
(Raul Moura Mendes in Uma ideia com defeito http://toqueinonada.blogspot.com/ )

quarta-feira, 30 de junho de 2010

para ter uma desculpa

Passei uns dias valentes a ouvir o entusiasmo de ajuntar as grupetas e tribos à volta de uma televisão para ver a bola.
No entanto o entusiasmo e invariavelmente, a quem perguntava por prognósticos, me respondia com um nariz retorcido que não havia grandes certezas de uma vitória.
Ora, sendo assim, de onde vem o discurso de espanto e desilusão quando constatado que afinal a equipa portuguesa perdeu? ...hummm...quer-me parecer que, racionalmente, perdeu-se o alegre motivo de esta azafama para preparar a visualização dos jogos e resumos, e a desculpa para ocupar umas horas em convivio.
Acho que se deve arranjar já uma boa desculpa. antes que se pague...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

não vale de nada fingir. há maldicência encapotada naquele ar singelo e propositadamente misterioso. é uma atracção fatal que tens, mas efemera e cansativa. não te quero nem para amiga.

segunda-feira, 22 de março de 2010

caramba, há quanto tempo!!

Decidi parar. chamaram-me caústico, perigoso, obsceno.
Decidi parar.
Já não farei deste um imenso e inenarrável muro de escrituras atrozes.

Agora, serei mais um blog. Talvez até lhe mude o nome. Já não sou um capitão (alguma vez o terei sido?)

Vou mudar para uma mansão, ali perto das pedras gastas e sujas do entorno histórico desta cidadezeca. Também descobri que as amizades estão em sítios sombrios e estranhos. Também descobri que apesar das tuas ausências me doerem sou perfeitamente auto-suficiente e prefiro estar sozinho que assim não me canso a esperar algo de vós.

pronto. já disse. contentes?!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Pés de barro para grandes empreitadas

Hoje estou num completo bom humor.

A fraqueza é uma qualidade que me inspira curiosidade.

Espreito os comportamentos dos fracos com ávido interesse.
Sempre aprendo.

É maldade pura, eu sei, mas por vezes chego mesmo a criar cenários, para que nos biquinhos dos seus minusculos pés de barro, gritem a coragem e audácia dos seus movimentos.
Depois aguardo quieto que tudo apure, coloco no tempero a minha ansiedade.
(e assisto a isto: o perfume da angústia, da espera, do falhanço anunciado saí por todos os poros destas personagenzinhas. Eu acho graça.)

Normalmente quem envereda por grandes empreitadas, de vista farta, teima em colocar-se em bicos dos pés, falar muito e com pouca consistência (mas com muita convicção) e badalar as diversas plateias os seus feitos ou o que está para ser feito.

Ora o galo que alto canta, enrouquece rápido. E depois - como criou o hábito de berrar - apita aquele ridiculo som de galinha depenada.

Acho graça.
Normalmente o que mais admirámos veio de fracas figuras, timidas, encolhidas e que coram nos elogios. Nas grandes empreitadas vemos barrigudos de bigodes proeminentes, mas que calçam ridiculos pés com pequenos sapatos de verniz. Espero com paciência que o verniz estale, descasque, esfole... e depois com uma falsa simpatia ofereço os melhores elogios à sua fraca condição como forma de humilhação que tem de ser aceite para não demonstrar que reconhece a sua minuspresença.

Acho muita graça.

Racham-se os pés de barro, mas não sustentavam mais que fumo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

nuas em barda

Continuo orgulhosamente só.

...no caminho da minha mente.

Tudo o que renego e desejo controlar, mas não posso ter, estimula-me os músculos e a mente. Entro em escalafrios, calores, palpitações, naúseas.
Nao me consigo controlar. Mas ninguém o sabe.
Disfarço numa impiedade que me traí. Porque mesmo depois de sentir, convenço-me que não é nada epara além de mero acaso do ócio.
Disfarço a erecção por baixo da bata manchada de sangue.

Andam nuas à minha frente, mostrando os seios firmes e as carnes rosadas.
Mais que renscentista, mais que barroco. Quase burlesco.
Nada disso me dilata a pupila.
Interessa-me quem está na penumbra, na palavra não dita.
Quero devassar essas verdades sem perguntar.
Levar ao extase a disforme senhora que só se mostra no nevoeiro.
Possuir.

Na verdade sou um canibal de almas e de segredos.
E aguço-me com a espera, com a preparação do banquete. Testando a minha habilidade de manusear, manipular, maquietar a realidade e montar a armadilha.
Depois do momento não há prazer.É uma verdade absoluta.
Valerá a pena degolar a ave que guarda a jaula? seria mais uma (verdade) nua. e juntaria-se à barda.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Desabafo sobre a demasia

...em demasia me parece a estupidez acumulada num ser com quem tenho de partilhar parte dos meus pacatos mas ferozes dias...

Só registo isto como um desabafo solidário àqueles que tem de tratar com essa espécie em expansão que são os estúpidos. Noutras paragens já testei este modelo, e resulta. é um quase-documento cientifico.

Passo a explicar: na descarga dos camiões de fruta, verduras, carne, peixe ou outros víveres, sou obrigado a cruzar-me e entediar-me em conversas absurdas com um ser de outro restaurante.
O outro restaurante é como se fosse uma segunda secção. O Dono é o mesmo para o qual cozinho.

Tenho de falar e não ignorar, porque mandam as regras de boa cortesia que troquemos trivialidades com os pares de outras secções. Até de restaurantes alheios ao cluster.
Se sou um embestiado que na verdade gracejo umas palavras com os transportadores, tenho de me obrigar a falar com os pares.

O importante ressaltar é que há neste par algo que me revolve as entranhas, e isso deve-se ao facto de ser um ente em que prolifera uma tamanha estupidez e demência que até chego a assombrar. A ignorância que exubera dava para uma boa dezena de mentecaptos. Mas este ilustre carrega sozinho este monumento à estupidez, e espantem-se: faz luxo de a deter.

É um joguete do Dono. Pausadamente devora-lhe a alma ao vesti-lo com um pequeno esterlato de lhe visitar amiúde o seu estabelecimento e isso fá-lo saltitar na sua fraca figura.

Apesar de confeccionar comida fraca, desprovida de imaginação e qualidade, e que com frequência acarreta problemas gastro-intestinais aos clientes e subordinados, o Dono usa-se dele para maquinar a hostilidade dos pares, como eu.
Não que o Dono desprestigie as demais secções apesar de não lhes demonstrar agraciamentos, mas a criatura enlevada em visualizações mais frequentes do Dono, usa um circuito de intrigas e distorções repugnante, recriando intrigas e desentendimentos desprovidos de verdade e base.

Ora, perdera esse poder de incomodar no momento em que lhe agraciei os paladares e menus . Levará a secção à ruína, e essa fama alargar-se-à a todos os restaurantes.

E com palmas e sorrisos, com malabarismos falsos passo mais depressa esses cinco minutos de contacto.

Assim se agraciam os estúpidos, especialmente aqueles que a carregam em demasia.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Orgulhosamente só.

Não sei porque abri o meu caderno de notas. Não me apetece escrever. Mas apetece-me partilhar a miséria dos meus dias. Ou não.

Conta-se por aí que aqueles que partilharam mesa comigo, que se sentaram no meu festim, se reúnem em festa na beira-mar. se por um lado me enfada a alegria exorbitada da pré-época, ou seja, do pré-momento, por outro lado me corrompe não poder ser analista nesse festim.

Adiante. Enfada-me não me divertir com a pequena inteligência que planeiam compartir nesses dias. Isso realmente me enfada, dirão vossas línguas que pode até ser envidia.
Como sei que não vou estar, atiro alguns grunhidos no burburinho de missivas.

A verdade é que sempre que rumo a estes estares em conjunto, ainda mais me enfado.
Mas a verdade é que não poder sequer aniquilar aquelas criaturas vãs com a minha agudez, com a minha perspicácia e não poder corromper as suas alminhas com a minha presença gloriosa causa-me um certo enfade, porque perco a oportunidade de me satisfazer com a minha ermitagem.

apre. não devia ter começado a escrever. é certo.

São amizades de outrora, que guardo com repulsa mas rego na memória para não esquecer. Vivo a certeza de que sou de outros mundos e vidas, de outros pensares e atitudes.
Olho sobranceiro sobre a multidão.
Voz grave.
Palavra pausada.
Fumo lento.
Sou maior, e quero-me sozinho nos pensamentos.

Não me quero corromper. Só largo ácido sobre a populaça com que convivo de vez a vez.

Sou uma besta. A vaguear entre o feliz e o insano. Orgulhosamente só na minha mente e no meu passo.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Músculos no rio

Estava a zombar o calor entre as varejeiras.
Nas velhas paredes sentia-se o suor dos poucos transeuntes como um eco, porque não corria ar e o odor estagnava-se nas nossas narinas.
Eram duas da tarde e tínhamos limpo as mesas dos clientes que não tinham aparecido.

Havia restos de vida nas ruas. Não era vida a sério. Eram os restos de ontem, de anteontem. Houve vida ali quando esteve mais fresco e a conversa fluiu ou o álcool atordoou o termostato corporal.

Tinha sido sério o caso. Houve barulho e polícia. Desmembraram a família porque nunca o fora.
O facto é que as coisas acontecem porque o cenário põe-se a jeito e têm de acontecer.
Aquilo fora uma desculpa. Amantes e dinheiro era clássico e ninguém desconfiaria ou duvidaria. Era passional, e portanto não tinha de ter lógica ou justificação oficial no verbo da maledicência, ou do mero entretém quando se tornasse público.

Também o forçaram a ser público, até ao pormenor sórdido das quantias pagas nos crimes.

Não se importavam. Não queriam saber. Eram co-habitantes. Não família. Nem aparentados. Parece-me até que nem conhecidos.
Mas o embuste social era perfeito: muitos, amigos, sempre juntos, animados.

Quando se importam não se juntam para sentir saudades e para ter o que contar.
Quando tive coração era assim.

Descascava a fruta com o cutelo porque estava mais à mão e deixe-me ficar a pensar nisso.

Se se importassem entre eles, deixavam - depois de todo o alvoroço - correr até às últimas importâncias todas as vinganças e afrontas. Porque achamos que tudo o que lhes vai acontecer é merecido como consequência para quem nos infligiu. especialmente se for "família".
Tretas.

Perdoa-se? Não. Dá-se com mais força. Porque também está a doer.
O ser sacia a sua fome com a fome de quem lhe roubou a comida.

Se há recuo é porque o protocolo exige esse fingimento...e de forma a parecer sentido.

Não existiam como família porque se rivalizavam em todos os seus actos. Até à ultima instância. Ou até nem isso. mas era assim que os obrigavam a ser.
E os outros membros tiraram partido e lados, barricaram-se de um dos lados em vez de se permitirem estar no campo de batalha desarmados e expostos às respingas de sangue alheio, mas também seu.


Desmembraram a família porque nunca o fora.

Ficaram felizes para sempre.

Boiava no rio pardacento uma massa de músculos.
Fora uma vaca que morreu de calor.

terça-feira, 24 de junho de 2008

De pedra a pós, passando por mós.

Caí na tentação fácil que já vos havia contado que era o meu pecado.
Faço-me de pedra e de escopo me dedico a criar forma. a criar. já errei várias vezes. Volta que não volta, vejo-me outra vez a braços com isto.

Deixo crescer a barba, não me lavo, dedico-me inteiramente à carcaça para tirar um corpo e depois vida. O frio inox da banca é o reluzente leito da minha mente.

Mas como sempre que nos dedicamos mais aos pecados do que ao que nos contém e educa, deitamos por terra as juras. E desanimamos. O desalento apodera-se de nós por vermos que somos uns merdas e que já voltamos a brotar suor e sorrisos. inebriado. bêbado. extasiado. já me deixava levar por uma coisa chamada paixão e que só faz mal aos fígados.

Passei a cortar-me de tanto esforço no dessossar as presas. Dediquei-me de mais.
Vi.
Desta vez fui mais rápido...mais rápido a recuperar a lucidez.
Voltei para onde me queriam: cortar. mero cortador. mesmo que o mais experto, mero cortador.
O problema estava em mim.
Mas agora já não me preocupava. Ocupava a minha mente sórdida em outros entretens. Inventei a estes Sujeitinhos um faro intocável. Rodeavam as presas a procura do cheiro da morte, e aquelas que gozavam de vida sentiam-se morrer. Era um jogo tonto. Acreditamos que temos poderes ou que os outros os tem.
Não tem arte. é o faz de conta assumido como verdade.
É um jogo tonto.

Vou voltar a escrever. Mas vou deixar de contar os crimes.

Talvez não. Não resisto a ser fraco.

Deixo agora o cutelo, as facas e as pedras. reduzo a pós a existência, e contarei só o relevante para a vossa. existência e desistência.



sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Cutelos e guarnições





Jamais traí. E aquilo a que julgueis traições, foram mudanças de estratégia, rumos novos, caminhos descobertos para atalhar e chegar de melhor forma ao principio traçado.


Ninguém poderá vislumbrar as minhas razões, porque não privam com o tear que ticateia no meu cérebro.



Um principio a ter em conta é a lealdade. Mesmo que seja a um souvenir das minhas experiências,e esses postais ilustrados que guardo na gaveta poeirenta da memória são feitos de pessoas. Energumenas ou não. Pessoas, entes.



Os loucos que noutrora foram adjuvantes e parceiros de quimeras condenadas foram a minha quadrilha.O clã como o disse. Coeso. Prometi-me a mim mesmo não surrupiar mais enternecimento advindo de qualquer parentesco de amizade, e para isso não alimentaria os animais enjaulados. Porque enfraquece. E não fosse, qual milagre da natureza cósmica, nascer-me de novo um coração.



Encontrei um bando. Promíscuo e sórdido. Acidamente sarcástico. Cortante e desprezível. Servia-me perfeitamente.



Destes posso contar-vos que riam ruidosamente quando trocidavam o mais pequeno, pacato e insignificante insecto rastejante ou voador. Não o matavam, nem desprezavam. Gozavam de requintes de malvadez na tortura que lhes provocavam gozos de luxuria.

Não seria o meu solo aquele. Já o havia experimentado, aquando de outra velhice.

Mas serviam perfeitamente para colmatar a falta de oralidade que me impunha no trato com a massa que zumbia à minha volta.



Gozo de boa forma física, pelas carcaças que reduzo em golpes secos de cutelo na banca de inox. Acompanhar estes alucinados nas suas suturnas viagens ao mundo negro do alcool e do crime não representava para mim qualquer esforço.



Não seriam um clã e nem muito poderiam a aspirar ser o meu.

Dei-me conta que se referiam a mim como um ser esverdeado a quem gostariam de integrar. Bradei que não os queria e por isso não me podiam querer.



O menosprezo, desdém excita exponencialmente o desprezado. Cria-lhe a sede e revolve-lhe o sangue. Manipula os sonos e apetites. Era o que tinha acontecido. Viciaram-se. Seguiam-me mergulhados numa expecturação que saia da sua excitação.


Tinha um bando. Tinha-o na total ascenção da palavra. Houverá um momento em que, como sempre, um dos cretinos se insurgira num motim isolado. Parti-lhe uma rótula e deixei-o coxo para todo o sempre. Havia crepitado dentro das suas cabeças o gozo que tirariam deste acto bárbaro, sadismo como meio de elevação. Ao próprio ensinei-lhe num falso salivar os prazeres do masoquismo. Idolatraram-me.

(...)

Houvera um tarado convencido de mais arte de manipulação ou mais engenho e persistência na grelha do que qualquer outro que me propos sociedade. Estudei o caso. Quando da primeira queimadura - e era um leve esquiço daquelas que já me marcavam as mãos - guinchou como um ganso entalado numa armadilha de ursos.

Mesmo com este fracasso continuava a rogar a sociedade: "Seríamos um mundo" dizia ao mesmo tempo que me mostrava a pequena ampola que nem marcas deixaria. Para ganhar importância juntou outras cicatrizes, dizendo-se capaz de suportar todas as dores.

Ora todos os desta profissão sabemos que o pior nas cozinhas apertadas e carrgadas de testosterona prestes a explodir sob o calor das grelhas, é a gritaria.

Soube nesse dia que não faria sociedades. E que queimaria a face do primeiro que ousasse levantar a voz no meu reino.

(...)


Servia-me este bando. Para experimentar todo o saber e suposições que cresciam dentro de mim. Essa eterna dúvida dos limites do pensar. Sob o meu próprio esgar maquinava lobotomias quimicas, quando não as mecânicasO bando encontrado e oferecido pelos deuses para as minhas experiências sucumbiriam as experiências que me conduziriam ao âmago e origem das gritarias...servia-me e era todo meu.




terça-feira, 7 de agosto de 2007

Sujeitinhos

Sentara-me no alpendre.
Abria as ostras com a navalha com que degolava vitelas anémicas.
Sugava a polpa das conchas asperas, deglutindo aquele manjar asqueroso.

Fazia isto por rotina.
Para me domar, para me controlar. Para refrear as demonstrações do que me repugna ou do que me entusiasma.
Afinal estas reacções eram pavlovianas, pois havia arrancado o coração e não havia em mim resquicíos de querer ou sensação.

O calor era muito e o odor das traseiras nauseabundo. As moscas eram enxames.
Semicerrei os olhos num torpor que alimentava.
Devo ter sonhado. Tinha um novo bando...uma cambada.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Entre explosões e empadões

Não me vou envolver de desculpas, nem pedidos de clemência. Não.
Queiram voces saber que larguei as lides.
Deixei o touro sozinho a bradar numa arena (agora) mais vazia que bailarico que terra perdida.
Ah! E cobarde sou eu, apesar da barba que me mostra a idade e sofrimentos, e não aspirasse tanto a produzir o cheiro morno do Pão e já o teria feito num passado mais longínquo.

Adiante.

Perdi-me de amores pela minha profissão e como já vem sendo hábito e histórico, sempre que alguém se perde de amores, acaba em separações tortuosas.
Deitei a bata ao chão.
Não queria aquela subserviência cega, aquele cinismo decrépito, aquela paz podre.
Até porque me achava maior.
Agora de longe vejo que era mais um, com engenho é verdade, mas mais um.
Apontaram-me brilhantismo. Mas castigaram-me como se fosse o mais torpe asno em acção. E como? reduzindo-me...
Mas "tão ladrão é o que rouba, como o que fica a porta" e eu que era o Senhor Roubado, fiquei a porta ao mesmo tempo. Portanto a mim me culpo.

Mas não é para a introspecção que aqui estou. Mas sim para deitar o fel. Para discorrer na arte da vingança. Para interpelar avisos.

Larguei o alguidar, os bolos, o forno, as formas, o açucar e farinha. Larguei cruamente o fermento. Sem olhar para trás, com aviso da despedida, iludi os que me seguiam e larguei-os à própria sorte.
Arranquei o meu coração e queimei-o para não mais o recuperar.
Rasguei os sonhos.
Amarguei-me e vendi a alma.


Os gourmets ficaram estupefactos. Os fritadores de rissois atónitos.
"Quem faria os bolinhos?!" ouvia-se em surdina nos corredores da corte.
Aguavam agora que perdiam.
Sacudi das calças a farinha.
De nobre voltei a ouvi-los.
Sorri e na malevolência que me torpia o pensar dei-lhes a cabeça que queriam.
Planeado ou não, fui cruel. Cruel com os máximos abutres que me perseguiam a carcaça e com o meu seguidor mais voraz.

A esse e por respeito à arte que professara, ensinei-lhe o caminho ao armazém secreto e deixei-lhe o medidor de açucar, qual Graal tão questionado.

Mas as forças do desejo não o acompanharam.
Perdido entre formas e arames, não elevou os merengues e queimou os coulis de fruta.
Entre drogas sucumbe, não aguenta as queimaduras do forno.
Sobrevive na tormenta de não ter paladar, segredo que a nínguem confessa.

A quadrilha fora destroçada. Tornaram-se abjectos, obsoletos e ridículos.

Agora à distância de um quarteirão vejo, rebolosos em lamas, que se afundam cheios de artificios.
Comem-se em abraços, esfaqueiam-se em mentiras, e na surdina os Mestres Gourmets calam a miséria à espera (espero eu) de enfraquecer aqueles que, em canibalismo, depicarão.

Cairam as portadas. A tinta somesse da fachada. O letreiro, outrora viçoso e luzidio, corrompe o orgulho.

Entre eles se cobrem, entre eles se ma(ltra)tam.

Passei a assador.
Animais inteiros se debatem sob as chamas que tutelo.
Entre eles os meus comparssas.
Prestam-me vénias e escarnios invejosos.

Não tem arte, não tem deleite nem glória, mas tem poder.


E...o clã quer voltar a ser meu. Seria a estocada de morte.
A arena ressoa ecos de vazio.