domingo, 23 de novembro de 2014

Comi fios de seda.

Tenho varias vidas dentro de mim.
Acho que não cabe mais nenhuma, mais nenhum ser ou nuance. Mais nenhuma variante de pessoa, de personalidade. nenhuma subtileza.
Vivi várias vezes e morri muitas mais.
As minhas, as dos outros. As que vivi com os outros.  As que os outros viveram na minha.
Como uma casa aberta, com as portas abertas, com as janelas escancaradas. Com a brisa a correr as divisões de cal e frescos esbatidos. Com o desgaste a adivinhar-se e os risos a escoar pelas frinchas da madeira viva.

Vivi várias vezes e morri muitas mais.E sobre essas vidas, no entanto, tenho a distancia dos imbecis.
Mas nao tenho a sua felicidade ingénua.
E roo a inveja devagar, como a lenha da madeira viva que se mata na lareira.

Bordaram as rendas na muselina da memória, devagar, impregnando de fios a frágil treliça. Iam pesando essas curvas feitas de pontos. Só se veem os bordados, essas flores, essas ramas, esses passaros e abstractos traços que tudo unem, pontuados de lantejolas e pailletes, em brilhos mágicos e fantasiosos.
Só se veem os bordados, fazendo desparecer a musselina que os sustentam.
Ao ranger da madeira, foram perdendo o matiz dos fios, da seda. Pelo uso ou pelo sol a que foram expostos. Enegrecidos pelo pó. Ou meramente porque perderam a novidade.

Essas vidas bordaram-se na minha, que de tão fraca ou rica, se escondeu nos fios, que estrangularam a sua trama, ou esgaçaram a sua constância. Cedeu quando foi preciso, mas nao desapareceu. 

Terei obrigado as bordadeiras a dar-me os seus fios e pontos? Arrastei neste jogo de saber a resistencia e flexibilidade da torção da fibra? Sim, despontei por duro prazer outras vidas em novelos que bordei na minha vida, vivendo tantas vidas.
A musselina que se mostrava e esvoaçava nas janelas à vista de todos roçava a madeira que rugia sob as vidas a passar. Pareciam hienas re-comendo as carcaças que ainda se mostram como corpos, sob a sombra dos bordados a se entrelaçar e a ruir, e fechavam essa casa onde julgavam habitar.

Abrindo e revisitando os meus aposentos que nao mostrei, que só eu usei e que permaneceram intactos perante o tempo, senti a madeira viva, pulsante. 
Foi sempre um jogo, ou nao.
Vivi muitas vidas e quiça nao vivi a minha, mas morri tantas outras tornando-me mais vivo.



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

entre vista


"Os vincos da pele acusavam o cansaço de demasiados fusos horários, demasiados quilómetros percorridos.
Percorridos e perdidos.
Na garganta e na voz surgia rouco o travo do ar condicionado dos hotéis, dos carros e das salas de reunião.
No olhar perdido nos cubos de gelo, a nostalgia dos jantares em lugares exóticos, a certeza de uma vida fora daquele ritmo frenético e vazio.
Estava sentado ao balcão no bar do hotel. Já era tarde.
Como pano de fundo, a cidade oprimia as janelas que tentavam libertar aquele cenário deliciosamente decorado.
Havia caras de muitas culturas, raças, tendências, credos naquele tão grande bar, mas tão intimo espaço.Cada cara, estava fechada em si mesmo. Mesmo que algumas delas estivessem acompanhadas.

Lá fora a humidade e o calor sufocavam.
O fumo que via seria dos tabacos das chichas e do ópio se ainda se fumasse nestes sítios.Não, o fumo era do entorpecer dos sentidos. Não sei porque via isto, nem como o fazia, mas via que cada corpo destilava vapor, odor, calor, sentimentos, repressões, desejos numa neblina turva. A sala estava densa….
Entre a adrenalina da aventura e a falta de coragem, estava paralisada ali.
Não sabia sequer o que fazia ali, como a minha cabeça tinha fantasiado este momento tão ao pormenor.Senti o pelos do corpo eriçarem.se e o racional empurrar-me para a arena.Afinal, tinha chegado até ali.
O desejo há muito reprimido, o prazer adiado vestiam-se de ocre.
Via-me entre as sombras reflectidas nos espelhos da sala.
Sentia sede.
O vapor que saía da minha pele era quente, húmido.Estava cansada, e não sabia que o ia encontrar. Não sabia o que dizer. Não sabia o que ia ouvir.
Tentei recolocar-me. Abstrair-me deste assoberbamento.
Aclarei os sentidos, mas não conseguia ver nada mais daquela figura.
Estava ali sentado.A camisa impecavelmente branca denunciava um dia sobre o corpo.A lã fria e o bom corte italiano, mantinham a estrutura do casaco mesmo no final da batalha. Os botões de punho pontuavam de luz e brilho esta cena parda. Não sei onde estava a gravata, se ali estivera, nem o tom dos sapatos.
Via a perna flectida no banco alto. As mãos telintavam o copo.
E eu não saia dali. Não conseguia convencer-me a entrar.
Principalmente porque não sabia como sair.
Procurei uma saída de emergência, perscrutar alguém que me pudesse acudir se aquilo tudo fosse um desastre ou corresse terrivelmente mal.
Como um afogado: antes de mergulhar no abismo, fascina-se, mesmo sabendo que pode não conseguir nadar para a segurança depois do torpor do impacto.
Não podemos prever a nossa capacidade depois de mergulhar.
Há um dia que vou sair da estrada, que tenho um acidente, que me desconcentro.
A velocidade, o abismo, o vicio, o abismo, sempre me atraíram. A falta de coragem sempre me contiveram e me mantiveram viva.
Continuava pregada ao chão de mármore. Parecia agora mole e lodoso debaixo dos meus pés…Segurava-me. A verdade é que estava a discorrer todas as desculpas para não me mover. Ou para rodar nos calcanhares e voltar a entrar no elevador, mas desta vez descer a cave, meter-me no carro e fugir dali a toda a velocidade. Ficaria noites sem dormir.
No arrependimento, castigar-me-ia. Creio que me vou punindo muito do que faço e do que evito fazer. Uma punição que não me dá prazer, que me desfaz.
Mentalmente, recordava como tinha deixado o quarto no 9.º piso. Como era. Como entraria de novo lá. 
Enchi-me de coragem. Esvaziei-me dessa coragem.
O fumo continuava a pairar. As silhuetas de fumo dum cinza rosado saiam da pele perfeita de uma magra asiática que deslizava entre as mesas a servir os hospedes. Baixou-se para apanhar um lenço de uma africana que ria continuamente. Viu-se-lhe a pele do dorso. O africano, que não ria, mas fazia rir debaixo da mesa, entesou os músculos ao ver a pele imaculadamente
pálida da asiática. Ela sabia. Desfrutaram em poucos segundos de um entreolhar que penetrava os corpos. Gozaram.
E eu sentia toda aquela reverberação. Tínia. Latejava-me a pele.
E a minha vibração foi sentida por ela. A minha ânsia, a respiração entrecortada. Deslizou até mim, e convidou-me com o suave gesto da cabeça a entrar. Estaria ali há segundos ou longos minutos.
O tempo absoluto não interessa mas o tempo vivido.
O negro olhou-me. Senti os tambores ao longe. Senti o odor da sua selvajaria.
A africana continuava a rir, abandonada a si.
Tinha que entrar, o orgulho imperava e eu não podia entregar-me a aqueles olhares que me questionavam a minha ousadia.
Já tinha feito adivinhar que tinha vontade. Que era curiosa. E no meio de uma valentia infantil, quase fanfarronice, tinha feito promessas veladas mas explícitos sentidos.
Caminhei pesadamente mas de forma a não ser ouvida.Senti a respiração do negro enquanto passava por ele. Senti o odor da negra.
A empregada, sob a farda negra, pulsava num suor imperceptível e perseguia-me com o olhar. Dentro da pele rasgada dos olhos, ardia.
Não sei se estavam estupefactos por ter avançado, pela coragem ou pela inconsciência e o medo transbordarem dos meus gestos.
Não sei se me queriam. Caminhei devagar.
Quando consegui levantar o queixo, uma mão grossa agarrou-me o pulso e sacudiu-me. Dei um gemido inconsciente e olhei para um homem, moreno, queimado pelo sol, de meia idade e olhos doce e perdidos no álcool que
inadvertidamente se metia com todos procurando companhia.
Um tuareg urbano. Um nómada. Perdido. Sem rumo. Atravessando o deserto urbano. Perdido.A asiática prontamente envolveu o cliente e libertou-me daquelas tremulas algemas humanas e como que a sibilar me soprou para seguir.
Tocou-me a pele e era como uma víbora.Fria, suave, deslizante, tentadora.
Ericei-me e recuei.Mas mais rapidamente andei até ao bar. Parei a menos de meio metro.
Uma brisa vinda de não sei onde, provavelmente da minha imaginação e medo, voou com  o meu cheiro, o meu fumo até ele. Pressentiu-me mas não me adivinhou.No momento em que levantava o olhar pesado, Toquei-lhe na mão.
Senti nesse toque a temperatura e a textura da pele. Adivinhei as veias e tendões. Ele sentiu-me o nervosismo.
Naquele segundo sabíamos porque estávamos ali.
Bebemos os dois malte. Repetidamente e de forma abrupta. Para atordoar.
Aqueles tragos eram o bilhete para a viagem.
Nunca soube, nem saberei o que ele sabia.
Mas sabia que naquele segundo sabíamos porque estávamos ali."

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

o meu irmão

corriam dias rápidos, entre os afazares obrigatórios. o sol fugia e os bagos maturavam o seu limite. cheirava aos primeiros orvalhos.
atarefado ia no seu pender, com aquele coxear que o caracterizava. tinham-lhe impregnado nas palavras que lhe dirigiam, a pena escondida.
todos tinham opinião mas ninguem vivia a sua vida e ninguem a queria viver. todos julgavam e ninguem ouvia. perdia-se naquele humor bolorento de criança tão pouco entendido.
o seu olhar cativava-me as maiores ternuras, nunca conseguindo impor-me ao perdão e amor que me brotava por cima de todas as raivas.
creio que houve momentos que ja não coxeava na vida, que já nao tropeçava, mas mantinha-se assim porque era o seu principio de vida. porque ali, naquele mundo podia ser ele com direito a todo o seu ser. livre, despojado, pueril.
ama a todos com um amor só seu e tantas vezes rapido de aproveitar. o seu coração é maior que o seu ser.
e sempre os nefastos resquicios de uma tristeza mais funda e indomavel se llhe assolavam a janela, que combate com uma revolta chorada, dorida, amarga. para os outros, mas principalmente para ele.
vai sempre atarefado, para ter a vida no seu pleno, maior, com um pulsar extenso, forte, totalitário.
vive um coração, que é todo ele e ele é todo o seu coração.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Protótipo de corrida

creio num ser superior e supremo. nada disto faz sentido.
como nada faria sentido sem esse ser. ou essa justificação.

a fé é um prototipo de corrida.
apura-se, mostra-se porém nao pode ser partilhado.
é único.
por vezes enche-nos de adrenalida, de superação, de motivação, expectativa e alegria.
por vezes deixa de acelerar e de espantar.
parece que vamos desistir dessa atitude épica de ter um prototipo sempre, sempre em teste.
sempre a querer ser superado e sempre a concorrer consigo proprio. sempre a esgotar-nos.

parece-nos amiúde, de umas vezes e outras, que pode ser melhorado.
e quando não nos satisfaz, parece-nos pronto - e quase justo - a ser largado na garagem, ou armazém poeirento. a ser esquecido.
mas renova-se e cria vida dentro de nós.
quem teve fé, tal como quem teve um prototipo de corrida, nao sabe viver no vazio.

a fé corre à nossa frente. mas corre nas nossas mãos. saí da nossa criação e eleva o génio a um nível superior. é sempre obra inacabada.
a fé é uma construção que alimenta o construtor.

a fé nao desiste, é feita da não-desistencia.
não falo de esperança. falo de fé.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ementa excepcional.

Numa mansidão invulgar, limpei as mãos no avental. Até eu me via lento.
Já tinha o trabalho feito e as facas afiadas.
Toda a mise en cene para qualquer banquete estava iminentemente pronta. Digo imenentemente pronta, pois não era necessaria nenhuma prontidão porque passava já grande parte da tarde e não havia vestigios de gente.

Na rua entrecruzavam-se passeantes a medo de se chegar ao restaurante uma vez que o tomavam por excepcional. Ainda assim, alguns a quem a idade, traquejo e segurança - ou bazófia - enchiam os pulmões, detinham-se na carta fixada na ombreira de pedra. Comentavam dignamente os pratos, o deleito que pressupunham, a habilidade da cozinha, e rematavam que aquele preço era certo dada a qualidade, a raridade, e certos de que seria um prazer opíparo um prato naquelas mesas.

Alguns espreitavam os vidros resplandecentes sob o sol, e de quando em vez, trocavam-se olhares e até sorrisos. Esses pontuavam raramente os meus dias. Faziam-me fantasiar sobre os comensais, os ingredientes, os odores, e o discurso corrido de fim de noite quando me afasto do campo bélico da minha cozinha onde batalho refeições sagradas para agradar e, me sento com eles. Deleitando-me a deixar-me ir.

Estava manso e ledo...numa quietude nostalgica. Os clientes eram os mesmos de sempre, os gestos repetidos, as palavras gastas.  Tive em mente faze-los enlevar a outros níveis, como de musica educá-los. Porém não passariam do mesmo, o seu paladar embrutecido - ainda assim em algo encantador - seria o  proprio limite em que se aninhavam.

Perceberá que os pratos excepcionais, não o eram mais. Para mim...necessitava de mais.
Fazer uma nova ementa para os mesmos era um caminho que ja tinha trilhado sem sucesso, aqueles paladares não exigem, nao debatem, não arrebatam.
Olhar os pratos com um novo entusiasmo era algo, que apesar de esforçado, não me saía. Já estivera perto, renovando os votos ao cebolinho, ao coentro e ao lagostín, mas rapidamente esmureci com a minha própria perícia.
Questionei-me se correria uma outra vez para desbravar outra cozinha, ou outras Cozinhas de sabores desconhecidos e não domados.E não me alentava.

E assim, passava os dias nessa mansarda que conhecia, e cada vez me via mais lento e manso a limpar as mãos suadas ao avental, com tudo pronto cada vez mais cedo e com maior eficácia... para preparar os pratos que não abandonava e que conhecia tão bem como o meu conforto conquistado e como a minha inquitude e insatisfação interior.


terça-feira, 15 de julho de 2014

qualquer resposta é boa.

na cinza penumbra da madrugada, lia os teus contornos com frieza.
entre o álcool que exalavas e o sentimento em que deambulavam as palavras e lágrimas, sobrevoava a incerteza de haver razão ou sentimento. jogavas contigo o jogo da brevidade e do imediatismo. não porque não sentisses, mas porque não sabias nada de sentimentos. a grandeza e a profundidade tinham um sabor que desconhecias mas do qual julgavas saber.
foram muitas as camas que penetraste e se calhar nalgumas perpetuaste alguns dias, mas poucas ou nenhumas aquelas em que lavaste a tua alma e em que enxugaste lágrimas alheias com as tuas já secas de tanto sofrer o alheio.
a vida já me correu pelas mãos evadindo-se de mim para ir viver a dos outros na minha alma. já me esvaziei de mim. já não estive. abandonei-me.
a frieza não é soberba nem supremacia. a frieza não é vazio ou distancia. a frieza é abnegação e abandono do meu sentimento. qualquer resposta é boa para perguntas inconsequentes e para questões profundas, quando estamos abandonados a receber qualquer resposta.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Na raíz das coisas

Uma árvore que bebe água ácida, contaminada;
que se rodeia de ervas daninhas;
por mais forte e frondosa que pareça, nunca dará frutos doces.
 

usar um machado

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terça-feira, 17 de junho de 2014

sequestro

Dei-me conta de um tumulto tumoral dentro de mim.
Não há operações, extracções ou outras acções de bisturi, manejado por réplicas do Dexter ou do Hannibal, que extrairiam aquele volume.

Numa forçada esperança recorro aos meus braços e golfejos de energia para conseguir expulsar esta vontade. Esta ânsia assassina. Suicida. Este terrorismo interior a que me submeto cada vez que pestanejo.
Mas como num ciclo verdadeiramente vicioso, entre a luta que alcança a sua meta, a revolução vê-se sempre reforçada. 

O ninho de abelhas passa a ter vespas, e o mel se transtorna num ferrão que não se distancia.
Iminente morte, deito-me com a deliciosa ternura da angustia. As almofadas desta cama são a luta e a superação, os lençóis o desejo e a tentação.

Suo. Molho-me e acordo morto de sede…
Doente? Pois sim!! Febril e preso.

Esta existência está sequestrada em cada canto da minha existência, e aquela existência é em si o sequestrador.

Não saí!  Não quero que me deixe. Sucumbo.

Esta existência que habita em mim cresce e regenera-se alimentando-se de si, e extinguindo a sua vida.
De uma clara e plácida aparência, tinha um suave pulsar. Uma existência que se dominava entre os dedos. 
Cresceu.
Por vezes assoma-se gigante dentro de mim, em cada janela e em cada espaço. A todas as horas. Invade artérias e veias, mistura os sangues e a saliva. É o negro ser. Monstruoso. Violento. Fascinante.

Quando não aguento mais, quando arreio à sua soberba, quando no negro e na sombra já cresce o lodo, quando o quero revestir de repulsa e afastar-me, curar-me, torna-se intumescido, brilhante, saudável e corado...pronto a dar-se.

Na delicia e ao sol quente de palavras genuínas esta arvore cresceu, floresceu e teve primaveras subtis. Passaram sob os seus ramos verões com cheiro a laranja e a sal.
Entre as folhas, como pequenas páginas de livros, poemas cantados no sopro da brisa, aparecia um céu azul, incandescente. 
Tomava-me de assalto e cegava-me. 
Sorri muito nesta pura brincadeira. 
Sorri na lembrança destes brilhos que entravam em mim. Esqueci-me de todas as sensações. Embalei-me e adormeci sob as suas folhas.
Um ramo ou outro partiram, mas a arvore não parou de envolver. 

A arvore não deixou de crescer e de enraizar-se.
 
Mas na sombra que sempre existe para o sol ser brilhante, estava a humidade do que não queria dizer. 
Esta humidade alimentava a arvore, as suas raízes, rega a existência para que viva mais, mais forte.
Queria que este espectro fosse repulsivo. Que me afastasse. Mas a sua viscosidade, tornou-se mais agarrada as paredes das vísceras que a repelem.

Tomou parte de mim. Tornou-se em mim.

Presente, é indelével no tempo e na memória.

Presencia tudo e corrói com a suposição da sua existência

domingo, 15 de junho de 2014

puro músculo

só os fortes podem ter ambições.

nadar na dificuldade de sair do curso de água ou escalar para não cair na avalanche obriga a esrforço.
nem sempre recompensado. nem sempre racional, válido, ou com razão de ser.
mas só os fortes, obstinados, preserverantes podem ter ambições. porque só esses aguentam.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Duro

A coragem é dura.
A liberdade é corajosa.
Ora, a liberdade é dura.

É preciso ter coragem para se viver em liberdade, em liberdade constante de viajar nos pensamentos, proferir palavras ou criar e manter omissões. A dureza de ser verdadeiro, ser único, ser louco tanto na profundidade como na frivolidade, é uma liberdade a que poucos tem coragem de aceder.

Houve quem visse uma quase perigosidade na maneira como vivo.
Num desprendimento, num sem amarrras.
Vivo de forma livre. Livre de pensar dentro de um mundo que nem quero saber se é só meu, livre para me cansar numa atençao redobrada a tudo e numa curiosidade atroz que não me deixa.
Invento.      Desinvento.
Questiono e até não quero ouvir respostas.

Mas esta forma perigosa nao me prende. E não me mata.
Não me prende porque não deixo. E naturalmente porque nao quero deixar.
Não me faz tremer ou vacilar. Cansa-me. Mas anima-me.
Porque é uma forma livre de ser. Deixar-me só ser. Assim.

É duro.

Já o sabia quando não sucumbi a facilidade de não ser livre. De me deixar ir apagando a existencia no meu mundo.
E reconheci essa dureza vezes infinitas. Na padaria e no barco. Na cozinha e na cama. No inverno e no verão.

Trago em mim essa estupidez perigosa de uma liberdade assumida.
Enrouqueço na liberdade de nao me prender à amarra da não verdade.
Gasto as palavras a dize-lo na defesa de não sucumbir. 
Ser verdadeiro é duro porque traz uma liberdade estupida.
Trago tambem na algibeira a liberdade que mostro. Quem por aqui se cruza sabe que sou livre. Quem aqui se cruzou não foi enganado. Houve quem ficasse à porta por saber ao que ia. 

Instável no pensamento, estável na convicção e no compromisso com as convicções.
Ser verdadeiro e ter a coragem de assumir perante os outros que se é livre, abrir-se a liberdade interna e mostrar-se o deesprendimento comprometido, é duro.
Nem é fácil de compreender, quanto mais de aceitar.
É duro.

No entanto sou um  livre que me enrrosco e entrelaço nos outros.Nos mundos alheios. Ceratmente levado por essa curiosidade que brota da atenção. Abro o meu tesouro de insanidades e sou permeável. Mostro. Ofereço-me em torno de mentes e ideias. Das minhas viagens e ensejos. Delicio-me na perdida certeza de me perder na minha liberdade e no entrelaçar. Entreguei a liberdade de ser livre, mas magicamente mantive-me tão livre como antes de cada entrega. Entregar é um acto igualmente livre. Corajoso.

Ser livre é duro e só.

Esse alguém que me viu a perigosidade quase libertina e psicotica, é livre.
Goza de uma liberdade hermética, fechada.
É - parece-me - igualmente duro e só.
Num mundo seu é tão livre como eu. É tão diferentemente livre, corajoso.
Não se entrelaça: tem a coragem de se assumir livre e conscientemente fechado.
Afasta qualquer entrelaço e desprende rapidamente e com uma perícia estrondosa todas as amarras que lhe lançam e todos os laços que o envolvem.
Essa liberdade é igualmente corajosa. E dura.

Porque ser-se só, é tão somente a forma de ser-se livre. De se ter a liberdade só de e para si.
Porque não ha livre-a-dois.

É só livre de forma louca quando nao permite nem entradas, mas verdadeiramente livre quando escolhe não ter saídas. Nada dali saí.
(para um curioso é um engodo que se desfere repetidamente como flecha em toda a carne)

Tem aquela liberdade corajosa e perigosa de ser-se e manter-se.
Intocável.
Visível, mas inabalável.
Visitável mas intransponível.
Como um castelo eregido num monte.
Não se entrega, mas todos o tomam por conquistado.

O seu segredo não é mostrado - porque assim o assume livremente - , com sorte são segredos algo descobertoa ou desconfiados. Sem ceretzas.

Mantem-se sozinho. Livre. Perigoso. Corajoso e suportando a dureza.
Zigzagueia com velocidade que o corpo lhe dá empurrado pela mente.
Pedala as ideias fazendo-as subir e mastiga-as na bolina com que percorre o mundo dos outros para que não o vejam.
É duro.
E sempre só. Na sua engendra veloz que não permite companhia. 

É totalmente livre.

...e quão mais perigoso que eu?


trapezistas


baloiçavam no ar, agitando o éter. Zumbiam, entrecortando as respirações absortas.

Nada mais se mantinha naquele infinito, debaixo da tela pintada de azul e fingida de abóboda celestial.
Eternos aqueles movimentos rápidos, delineavam os nossos olhares, conduziam as nossas mentes. Nada mais parecia existir com tamanha presença.
Aquela realidade única e vivida por tantos. uma maneira de administrar espanto era deter as mãos magicamente soltas entre os saltos.


Algo único. Inquestionável.
zummm-zummmm...E baloiçavam no ar os trapezistas daquele circo.
Esse circo que nos preenchia e onde vivíamos essa vida que achamos plena, mas sabemos reduzida. Sabemos que lá fora há mais, que existe mundo atras dessas portas de oleado pesado em que nos achamos exclusivos...

Aquele baloiçar seguro em cordas finas, similares a pressupostos plenos, mundanos, reais, absolutos...

Aquele baloiçar pendia levemente no ar, mas de forma tão sustentada que parecia inabalável. Tão seguro que inquestionável.

Os trapezistas guiavam-nos nesta vida.

Os trapezistas revezam-se em malabarismos, nuances da sua actuação e existência.
E condicionavam a nossa a existência nesses minutos e horas em que apenas neles nos fitávamos; que sob eles vivíamos, religiosamente. sagrada e obedientemente.


Os trapezistas caíram. Soltaram-se da mão. Desagarraram-se.

Um caiu desamparadamente na rede, e vimo-lo como um pedaço de carne sem valor e beleza. nos segundos da queda perdeu a magia e o absolutismo.

O outro, do alto, pendia fragilmente do trapézio rasgado, periclitante.

Agora olhávamos com desdém não a abóboda, mas a arena onde tudo se passa; essa arena de pó, quase lodo, onde todos os passos se revelam. Desmascarávamos essa quietude zumbida, para ver a massa humana arrastar-se nessa humilhante perda da grandiosidade, da verdade fingida e sustentada por tempos incontáveis.

Afinal . . não eram mais que nós.
nessa terra que cobre o chão, nesse pó fino que sob todos emerge, passaram ao que sempre foram: partes.
Saímos dessa realidade a que chamamos vida, esssa existencia comandada, quase fingida, absorta, quase vazia.
E voltamos ao mundano mas magnifico ser da descoberta. do caminhar à deriva, com a nossa mente e sem artifícios que nos toldam.

as verdades são como trapezistas.

Regressar sem regresso

Tinha escrito em 2012,e houvera prometido recatadamente e em contrariedade nao voltar aqui.
mas os textos estão feitos. Recatadamente corajosos e negros. Só meus. Somente partilhados num acto de coragem cobarde. a quem corrompi.
E de forma quase muda, mas certamente recatada aqui estou.

Voltei.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

opostos

estou no oposto da sociedade.

uso expressões fora do calão.
não uso cartões de crédito.
não tenho telefone da moda, nem tablet.
sou do clube gozado.
tenho ideias bota de eslástico.
acredito e tenho fé. vou aos rituais.
não malho o corpo.
não estou nas redes sociais.
escrevo à mão, corrigindo o acordo ortográfico.
ouço música antiga.
obedeço a leis e estado, mesmo não corcondando.

mas os opostos atraem-se.
e a atracção leva a apreciar.
e por isso gosto de observar a sociedade a manipular a Humanidade.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

maria da vida moderna



Maria
ia com os seus limões e laranjas no cesto.
Ia pouco formosa nos seus 47kg, e menos segura do alto dos seus pequenos 1.63mt.
Estava magra e cansada, trabalhava na frutaria ha anos, mas com a crise que debandava nos telejornais, tinham dispensado o Pedro, que fazia as entregas. Era obrigada (quanto mais não fosse porque enquanto atendia os seus clientes não retirava o sorriso pálido e pueril do rosto) a fazer as entregas nas casas que lhes compravam citrinos, frutas exóticas e nacionais, das ilhas e do oeste.

Percorria a rua com ligeireza mas com pesar .
Pensava no Pedro, agora com o seu avental monogramado com a inicial da frutaria pendurado no cabide da entrada. Não teria a delicia das maças demasiado maduras a soltar a doçura a cada dentada. A verdade é que também não ouviria o roncar do dono na sala dos fundos.

O Pedro havia sido, ainda era, um dos grandes acontecimentos na vida de Maria.

No silêncio do trabalho da frutaria entreolhavam-se com cumplicidade. A cumplicidade que se havia construído por vários meses nos fugazes almoços que partilhavam, à vista de todos, mas sem que ninguém os visse realmente.

Sentavam-se ao sol, nas traseiras da frutaria, e olhavam o rio. Contavam um ao outro o que não haviam contado a ninguém. Pequenas fantasias e estorias, sobressaltos e medos, aventuras e recordações. Namoros que haviam tido, pecados inconfessáveis. Faziam perguntas emabaraçosas e provocações esteréis para chegar mais longe ou para simplesmente fazer corar o outro.

Riram de forma infantil e sorriram de forma demasiado adulta dadas as circunstâncias.

Maria era a rapariga para quem todos olhavam, pelo sorriso, pela facil presença tagarela que sempre mostrava. Era uma rapariga moderna. Aprumava-se todas as manhãs, desfrutava de frangancias elegantes depois do banho. Melhorava o seu ar dorminhoco com um pouco de maquilhagem, e caminhava altivamente. Sacudias as madeixas negras por cima dos ombros magros. Nunca mostrava fraqueza. Não queria ser vista como um despojo da vida. Protegia-se. Era mais fácil.

Pedro era o sisudo e cumpridor rapaz das traseiras, sobre o qual todos tinham uma perspectiva.
Aprumado, mas semssaboro, não levantava poeira ao andar no pátio. Era meticuloso ao ponto de colocar os pés das pêras rocha alinhados e os morangos ordenados por tamanhos. Silenciava-se ao ser chamado a atenção pelo dono da frutaria, como muitas vezes acontecia, mas Maria julgava que nesses momentos cantarolava algo gozão dentro da sua cabeça para não ouvir. Mas Pedro, mais do que nao querer ser visto como um despojo da vida, simplesmente não queria ser visto. Era mais fácil.

Maria era curiosa. Pedro mais do que ele proprio pensava, ou que todos podiam jurar.

Naquela hora de almoço, juntavam-se num mundo a que só eles tinham acesso. Um mundo imaginiário, que deixava o odor da sua insanidade a rastejar pela tarde até ao anoitecer, quando ruidosamente o gradão corria para fechar a frutaria, e quando eles desapertavam com lentidão e reflexivamente o avental monogramado.

Trabalhavam mais pessoas na frutaria, mas só eles é que trabalhavam lá, na sua visão.Voltavam as vidas reais que tinham na sua rotina. E uma vez atrás de outra, voltavam àquele mundo.
A vida moderna tinha-os obrigado à solidão de almoçar a correr, e tinha-os juntado na humanidade eterna pela necessidade de partilha.

E por um momento infimo, num volt-face do destino (que de tão estranho acontecimento, pareceria um acontecimento premeditado e propositado) a sua vida quotidiana pudera ter-se misturado, inbuído, inundado naquele mundo só deles imaginado.
Mas, como cobardes plenos de rectidão, mantiveram os dois mundos separados.

Maria ia pisando a calçada com o cesto a baloiçar os limões e laranjas, embrulhada no avental.
Maria ia com pesar e presa. Sorria fingida e vaziamente aos transeuntes.
Mal almoçava, acompanhara-se por outras pessoas, mas jamais partilharia o que o Pedro lhe havia levado.
Continuava a andar com altivez. Menor, agora que passaram anos.
Recordava infinitamente o rapaz.
Assombrava-lhe o rumo que o tinham tomado as suas vidas.

As maças já nao deslumbravam doçura ao entardecer. Para ela só havia agora a fragancia da ácidez dos limões que lhe recordavam as escolhas da vida, e o odor acre das laranjas que tinha escolhido com devota fidelidade.

Maria ia pisando a calçada com o cesto a baloiçar os limões e laranjas, embrulhada no avental.
Maria ia com pesar e presa, perdida no seu mundo imaginário, e seguia a sua vida moderna.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

pessoínhas

Há pessoas. Há pessoas importantes, interessantes, cómicas e divertidas, sizudas, complexas e simples. Com um talento, com uma capacidade, com utilidade. Com vida privada fora do público.

E há pessoínhas. Sem importancia mas a mostrarem-se; sem interesse mas a falar muito; sem graça mas a contar constantemente historietas; pouco sérias mas muito moralistas; com pouca profundidade ou ideias mas problemáticas; com vidas resolvidas mas deprimentes. Com uma vida privada exposta, por falta do que mostrar publicamente.

Todos conhecemos algumas destas últimas. Felizmente conheço algumas das primeiras. e das boas. E é destas que temos de nos alimentar, e que temos de dar de comer da nossa vida quando ela é boa. E porque a fazem melhor.

Das pessoínhas temos de nos afastar mesmo que as tenhamos de suportar.
Essas, querem-nos mortos porque são necrofagos da nossa existencia.

Com as pessoas podemos mostrar a vida privada, porque não será pública, e porque eles nunca perguntarão o que não quer ser contado. Com as pessoas podemos debater a vida publica, porque elas não questionarão a sua aplicação na vida privada.

Têm classe e inteligencia. Uma índole admirável. Mesmo que não tenhamos afinidade, identificação com elas, reconhcemos as pessoas . Mas só se formos pessoas.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

um ano passou

um ano passou com muitas histórias para contar que não valeram a pena contar aqui.
pareceu-me bem voltar.
visitei incansavelmente a blogsfera sem me ter encantado, apesar de ter gostado de algo do que vi. resolvi por isso voltar.

agora com uma nova postura. menos dramática, mesmo quando o drama habite em mim...deixei a cozinha de cutelo, e resolvo com simples preparos as diárias do quotidiano.

redescobri que as pessoas repetem-se noutras pessoas, pois quando não valem nada, são comparaveis e criam um padrão. por isso não merecem mais o meu registo dedicado.

pronto. voltamos a escrever. e sobre quê? logo veremos.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

veio o frio

Veio o frio, e com ele a preguiça doce da lareira, do sofá, das castanhas, dos amigos e da falta de vontade de colocar aqui as coisas que me vão surgindo nesta mente desgastada da observação.
Está aqui a explicação da ausência. Ou a explicação que me parece credível.

Porque na verdade tenho tanta coisa para dizer mas com pouca vontade de revelar.
Até questiono fazer um novo blog, ou vestir este de nova roupagem (talvez seja mesmo do frio) e torna-lo mais aprazível, mais lido, mais convidativo e menos hermético. Menos meu, talvez. ou mais claro.

Que devo fazer?

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Esperança

Muita esperança me enche a alma. E poucas perspectivas.
A natureza é sempre soberana.
O Estado um carrasco.
O amanhã uma incógnita.
A mente e feitos humanos uma verdadeira incongruência.

Ter esperança é viver no limbo, saber que se avança no arame sem saber se ha rede, estarmos preparados para tudo (o melhor e o pior) na ansiedade e certeza de não se estar preparado para coisíssima nenhuma.

Odeio a incerteza, mas não sobrevivo a certezas a encher-me a vida. É uma violação à imaginação, à adrenalina, à emoção.

38

Já passa dos 30,é mais que 35 e ainda não são os afamados 40's. Fazer 38 é satisfatório.